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A Música de Chico no Cinema

Ao compor para filmes, Chico Buarque tem a intenção de que o público saia do cinema com alguma música na cabeça. O filme funciona como um “estimulante artificial” para sua criação. Mesmo quando feitas especialmente para determinado filme, suas canções não costumam ilustrar ou comentar literalmente os enredos. Em sua grande maioria, são narrativas ou digressões paralelas que se relacionam com as tramas apenas indireta ou metaforicamente. 

 

Em sua trajetória no cinema, Chico construiu quatro importantes parcerias com cineastas: Hugo Carvana, Cacá Diegues, Ruy Guerra e Miguel Faria Jr. 

 

Hugo Carvana propiciou sua estreia em shows no Rio de Janeiro, convidando-o para cantar na boate Arpège, em 1966. O show Meu Refrão era produzido por Carvana e Antonio Carlos Fontoura. Com Chico estavam Odete Lara e o MPB-4.

Chico, Odete Lara, anos 60.jpg

Carvana foi quem apresentou Chico a Marieta Severo, que então trabalhava com ele na peça Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come. Ambos tricolores, ficaram amigos, frequentavam juntos os jogos do Fluminense no Maracanã, integraram a torcida Jovem Flu e faziam torneios de futebol de botão. O primeiro encontro dos dois no cinema foi contracenando em Quando o Carnaval Chegar. Mais tarde, Chico criou canções para os filmes Vai Trabalhar, Vagabundo, Se Segura, Malandro e Vai Trabalhar, Vagabundo II – A Volta. Neste último, fez uma ponta como Julinho da Adelaide.

Com Cacá Diegues a aproximação se deu a partir de um encontro num pequeno restaurante de Copacabana, em meados dos anos 1960. Cacá já tinha ouvido Nara Leão cantar uma marchinha de Chico, antes de lançar o compositor em seu primeiro álbum, de 1966, e tornar-se sua intérprete frequente no início da carreira.

Com Nara e Cacá.jpg

Chico colaborou no roteiro, compôs músicas e atuou em Quando o Carnaval Chegar. Para Joanna Francesa e Bye Bye, Brasil, criou duas de suas canções mais admiradas. Ele ainda compareceu na trilha musical de mais três filmes de Cacá: Dias Melhores Virão, O Maior Amor do Mundo e O Grande Circo Místico, adaptação da peça-balé de Chico, Edu Lobo e Naum Alves de Souza.

Na década de 1960, as turmas do cinema e da música costumavam andar juntas. Nos bares da Zona Sul do Rio nasceu a amizade entre Chico e Miguel Faria Jr. A parceria criativa por pouco não começou em Na Ponta da Faca, quando Miguel o convidou para fazer a trilha musical. Chico não teve tempo. Mais adiante, Stelinha ganharia uma bela canção buarqueana. Três outros filmes do diretor têm músicas especialmente compostas com participação de Chico:República dos Assassinos, O Xangô de Baker Street e Para Viver um Grande Amor, no qual Chico também colaborou na confecção do roteiro. Miguel realizou o documentário definitivo sobre o compositor, Chico, Artista Brasileiro. Em 2025, iniciava o projeto de adaptação do livro Bambino a Roma. Há décadas, Miguel e Chico mantêm o hábito de jantares quinzenais com amigos.     

Com Miguel Faria Jr..jpg

Já a parceria com Ruy Guerra está intimamente ligada ao teatro. Juntos, Chico e Ruy fizeram a versão das canções da primeira montagem brasileira de O Homem de La Mancha e a peça Calabar – Elogio da Traição, com as nove músicas de sua trilha. Junto com Perinho Santana e Osvaldo Loureiro, Ruy dirigiu o espetáculo Chico & Bethânia em 1975. Assinou ainda a versão cinematográfica da peça Ópera do Malandro, de Chico, e a transposição do romance Estorvo para as telas. Em 2023, anunciava um projeto de adaptação de Calabar para o cinema. 

Com Ruy Guerra.jpg

Foto: Zeca Guimarães

Em 2005, a Universal Music lançou o CD duplo Chico no Cinema com 32 canções compostas por Chico para a trilha de filmes brasileiros.

Neste capítulo, abordo não apenas as canções originais, feitas sob encomenda para os filmes, mas também aquelas pré-existentes que foram incorporadas à trilha musical. Um módulo específico trata dos filmes inspirados por alguma canção de Chico. Num adendo ao final, trago algumas das incontáveis vezes em que canções de Chico são cantaroladas, citadas ou mesmo assoviadas por personagens de filmes.

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