A Música de Chico no Cinema
Filmes inspirados em canções de chico
VEJA ESTA CANÇÃO
1994. Direção: Cacá Diegues
O telefilme é composto de quatro episódios inspirados em canções de Jorge Ben Jor (Pisada de Elefante), Gilberto Gil (Drão), Caetano Veloso (Você é Linda) e Chico Buarque (Samba do Grande Amor). Esse último episódio tem um argumento bastante distanciado do sentido da letra de Chico, criado por Betse de Paula (roteirista), Nelson Nadotti e Isabel Diegues.
Na Gamboa, bairro popular do Rio, um jovem apontador de jogo de bicho (Emilio di Mello) se apaixona por uma voz feminina que vem de um casarão, entoando em vocalise a melodia do Samba do Grande Amor. Ele julga que é a voz de uma trabalhadora do sexo (Silvia Buarque), sem saber que na verdade é de uma senhora idosa (Fernanda Montenegro).
O grande amor, então, pode ser um mero engano, mas também se refere à relação de longa data da idosa com seu marido. A história caminha no rumo da redenção pelo lirismo com mais uma das fantasias poéticas típicas de Cacá: o angélico rapaz levita sobre a cidade e promove transformações benéficas em alguns personagens.
Diversas frases de letras de Chico aparecem como tendo sido escritas pelo jovem e atiradas em bilhetes à janela da prostituta. Na cena em que os dois se encontram, é interessante ver Silvia Buarque falando os versos do pai. A canção que dá título ao episódio só aparece com letra na sequência final, assim mesmo parcialmente abafada pelos diálogos. A interpretação é de Sergio Ricardo e Djavan.
FEIJOADA COMPLETA
2012. Direção: Angelo Defanti
A inspiração desse curta se dá por via indireta, passando pelo conto homônimo de Luís Fernando Veríssimo, que por sua vez se inspirou na canção de Chico, composta originalmente para a comédia Se Segura, Malandro, de Hugo Carvana. O conto é parte da coletânea Essa História Está Diferente, organizada por Ronaldo Bressane, que reúne contos de autores brasileiros e estrangeiros inspirados em músicas de Chico.
A feijoada de sábado é uma rotina do casal Carolina (Thaís Tedesco) e Pedro (Augusto Madeira). Ele faz questão de trazer o “batalhão” de amigos depois do futebol. Mas nesse sábado Carolina está disposta a terminar com aquilo. Está cansada de um casamento morno com um marido “simpático até dormindo”, mas que não compartilha sua formação mais refinada. A mãe de Carolina (Sonia Braga) insiste para a filha tomar essa decisão. No entanto, Carolina hesita.
Pedro liga a toda hora recomendando os cuidados com a preparação da feijoada. Suas orientações ao telefone repetem literalmente os versos da canção. Ele depende desse almoço para conquistar o chefe e o dono do laboratório onde trabalha. Assim, o aspecto rotineiro da letra de Chico se reveste, no conto e no filme, de uma tensão quanto ao desfecho do almoço e do casamento. Ao fim e ao cabo, o amor vai vencer em sua forma mais simples, e a feijoada estará completa.
A gravação de Chico entra nos créditos finais. A íntegra do filme está disponível neste link (acessado em fevereiro de 2026).
MEU CARO AMIGO CHICO
2012. Direção: Joana Barra Vaz (Portugal)
Concebido como uma resposta à canção Tanto Mar, de Chico Buarque, e aproveitando o mote do chorinho de exílio Meu Caro Amigo, esse documentário musical passa em revista diversos músicos portugueses em busca de um sentimento de país e de momento histórico. As relações e influências entre a música do Brasil e a de Portugal são objeto de algumas reflexões.
A memória da Revolução dos Cravos emerge com o sabor de entusiasmo, como aparece na primeira versão de Tanto Mar, censurada no Brasil e apresentada somente em Portugal, e com o retrogosto de um certo desencanto, expresso na segunda versão da música.
Chico é visto e ouvido na trilha de abertura do filme cantando a primeira versão em Lisboa, em 1975. Após um breve depoimento de arquivo, ele aparece cantando a segunda versão no Brasil, em 1978. Entre os vários músicos do elenco, destacam-se os portugueses Sergio Godinho, parceiro de Chico na música Um Tempo que Passou e preso no Brasil em 1971, e José Afonso, autor do clássico Grândola Vila Morena; a cantora brasileira Luanda Cozetti e o grupo Roda de Choro de Lisboa.
O grupo português Os Quais interpreta Meu Caro Amigo Chico, de sua autoria, que soa como a resposta mais direta a Tanto Mar. Em gravação de 1977, em Lisboa, Chico canta Fado Tropical acompanhado do violonista Carlos Paredes. Por fim, nos créditos de encerramento, Chico apresenta Tanto Mar no palco do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, em 2006.
O documentário é pontuado por flashes de um jogo de futebol organizado durante a temporada de concertos de lançamento do álbum Carioca, de Chico Buarque, em Portugal.
O ABISMO PRATEADO
2013. Direção: Karim Aïnouz
Em vez de “livremente inspirado”, esse filme deveria constar como “mui fugazmente inspirado” na canção Olhos nos Olhos. Na verdade, Karim Aïnouz se reporta somente à primeira estrofe da composição, deixando que o resto – o principal, que é a volta por cima da mulher abandonada – fique somente como uma possibilidade futura.
Alessandra Negrini, dona absoluta da tela, é Violeta, uma dentista que ouve no celular o recado do companheiro dizendo que partiu e não volta mais. Ela passa pelas fases sucessivas da vítima numa separação: se choca, se desespera, se dissipa… Até que um encontro quase mágico a coloque na reta da aceitação.
Depois de uma longa deambulação de Violeta pelas ruas do Rio de Janeiro, por um salão de dança e por um quarto de motel, ela se vê no Aeroporto Santos Dumont deserto numa madrugada, acompanhada de um pai solo e sua filha. É quando o rapaz (Thiago Martins) cantarola Olhos nos Olhos. Nas tomadas de encerramento e nos créditos finais, ouve-se a canção completa em gravação especial da cantora Bárbara Eugênia para o filme.
E ALÉM DE TUDO ME DEIXOU MUDO O VIOLÃO
2013. Direção: Anna Muylaert
A canção A Rita inspirou alguns elementos do telefilme de Anna Muylaert além do título. Rita (Naomi Silman) é o nome da mulher inglesa que não se adaptou bem à vida em São Paulo e sucumbiu ao alcoolismo. É ajudada por sua filha Érica (Daniela Piepszyk), de 14 anos, que sofre muito com os destemperos da mãe. Aprender a tocar violão, no rastro do pai divorciado (Marat Descartes), é o consolo da menina. No clímax dramático do filme, Rita destrói o violão de Érica, selando assim a separação entre mãe e filha.
A música de Chico é insinuada por Érica na cena final, durante uma aula de violão com André Abujamra. introduzindo os créditos finais ao som da versão de Os Mulheres Negras, gravada especialmente para o filme.
Anna Muylaert já havia então visitado a obra de Chico Buarque em É Proibido Fumar e voltaria a fazê-lo em 2025 com sua adaptação de Geni e o Zepelim. E Além de Tudo me Deixou Mudo o Violão pode ser visto neste link (acessado em fevereiro de 2026).
FUTUROS AMANTES
2022. Direção; Jessika Goulart
O curta é um trabalho de conclusão de curso da Faculdade CAL de Artes Cênicas. Não houve uma inspiração direta da canção homônima, mas apenas a apropriação do título, da referência futurística e de um trecho da gravação de Chico nos créditos de encerramento.
Num futuro distópico, Lorna (a atriz trans Lux Nègre) acorda da hibernação a tempos regulares para passar 24 horas desperta antes de hibernar novamente. Ao saber que seu prazo de hibernação foi estendido além da conta, ela se rebela, mas conta com o amor de Boris (Gabriel Manita), o cyborg encarregado da manutenção, que se junta a ela.
GENI E O ZEPELIM
Projeto. Direção; Anna Muylaert
Em abril de 2025 foi anunciada a produção do filme de Anna Muylaert baseado na canção homônima de Chico Buarque. No papel de Geni estava escalada a atriz Thainá Duarte. A notícia provocou acusações de transfake, isto é, a escolha de atrizes cisgênero para representarem personagens trans. Apesar de a diretora alegar que o filme se inspirava na canção – que não define o gênero de Geni –, e não na personagem trans da peça Ópera do Malandro, a produção redefiniu o projeto, chamando a atriz trans Ayla Gabriela para o papel.
As filmagens se deram na cidade de Cruzeiro do Sul, no Acre. Confome a sinopse oficial, o longa narra a história de Geni, prostituta de uma cidade ribeirinha, localizada no coração da floresta amazônica. Amada pelos desvalidos e odiada pela sociedade local, ela vê sua cidade sendo invadida por tropas lideradas por um tirano, conhecido como Comandante (Seu Jorge), que chega voando em um imponente zepelim, com um projeto de poder predatório para a região. Ele obriga todos a fugirem rio adentro, onde acabam presos. Porém, quando é vista pelo Comandante, Geni percebe que talvez ainda haja uma chance de virar o jogo. Caso ela aceite passar uma noite com o invasor, ele promete deixar a cidade e levar suas tropas embora.
