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A Música de Chico no Cinema
São bonitas as canções – 1990 a 1996

STELINHA

1990. Direção: Miguel Faria Jr.

 

Na derradeira cena desse melodrama, depois de decair ao fundo do poço da autodestruição pelo álcool, a miséria, o sexo deprimente e o autoengano, a antiga estrela do rádio canta Choro Bandido, de Edu Lobo e Chico Buarque, para uma pequena plateia de mendigos. A atriz Ester Góes faz playback com a voz de Adriana Calcanhotto. Não deixa de ser um grand finale, pois reafirma, não sem certa ironia, que, apesar de tudo, “são bonitas as canções”.

 

A composição fazia parte originalmente da peça musical O Corsário do Rei, de Augusto Boal (1985).    

VAI TRABALHAR, VAGABUNDO II – A VOLTA 

1991. Direção: Hugo Carvana

 

Na sequência do sucesso de 1973, Dino (Hugo Carvana) retorna do exílio no México se fingindo de morto dentro de um caixão. De volta ao Rio, sai em busca da amada Carmen (Marieta Severo) e de novos trambiques. A canção-título é ouvida em versão instrumental na abertura e nos créditos de encerramento. Essa última sequência repete o mote do primeiro filme, com todo o elenco participando do embarque em um navio de cruzeiro.

 

A letra só é cantada em coro pelos amigos no falso enterro de Dino, entre eles Chico Buarque no papel de Julinho da Adelaide (veja a cena em Chico ator).

 

Chico compôs para esse filme o bolero Trapaças, comentário sobre a “elegância” de Dino em suas malandragens. A canção é defendida por Marieta Severo como cantora glamourosa, assim deixando clara sua cumplicidade com o amante. 

Mandarim canções

O MANDARIM

1995. Direção: Julio Bressane

 

Trato com mais vagar desse filme no capítulo Chico ator. Cabe aqui ressaltar dois momentos em que canções de Chico são vocalizadas por outros cantores no entrecruzamento de personagens e intérpretes de O Mandarim.

 

Gal Costa, em papel alusivo a Carmen Miranda, canta Morena dos Olhos d’Água durante uma travessia marítima, assim invocando os versos “Vem saber quantas vitórias, morena / Por mares que só eu sei / Morena dos olhos d'água / Tire os seus olhos do mar”.

 

Mais adiante, Edu Lobo, representando Tom Jobim, interpreta uma canção não de Tom, mas do próprio Edu com letra de Chico: Choro Bandido, presente também na peça O Corsário do Rei e no filme Stelinha. Como que para sublinhar a intertextualidade presente em todo o filme, Edu introduz a música dizendo que acabara de compô-la não com Chico, mas com Noel Rosa, papel de Chico no filme.  

A OSTRA E O VENTO

1996. Direção: Walter Lima Jr.

 

Eu conto no meu livro Walter Lima Júnior – Viver Cinema:

 

Walter pensava em pedir a canção-título a Caetano Veloso, mas a figurinista Rita Murtinho soprou-lhe que aquilo estava mais para Chico Buarque. Walter já havia feito videoclipes com Chico para a Globo em 1985.

 

Depois de ver o filme em vídeo, ter uma conversa com Walter no Jardim Botânico e ler trechos do diário de Marcela, Chico compôs a música. Na verdade, ele já tinha a melodia pronta. Desde que ouviu sobre a história da menina apaixonada pelo vento, lembrou-se da valsinha de ninar que fizera para seu neto: “Vai Chiquinho vai, Chiquinho vem”. Já havia vento ali. Achou que o vento devia bater na própria música, provocando o deslocamento das palavras.  

 

Mandou primeiro uma fita com assovios no lugar da letra. Depois outra, com sua voz e os versos primorosos na sugestão rítmica dos movimentos da natureza. Luísa Possi, filha da cantora Zizi Possi, estava indicada para gravá-la, mas Walter tinha outros propósitos. Queria que sua filha entoasse o último lamento de Marcela. A voz de Branca Lima era clara, pura e afinadíssima como convinha. Mas não foi fácil convencer a encabulada cantora de 18 anos a empunhar o microfone pela primeira vez. Finalmente, ela aceitou comparecer diante de Wagner Tiso para um teste (“rigoroso e sem concessões”, pediu Walter). O pai ficou em casa, aflito, aguardando um telefonema.

 

Aprovada, Branca gravou não só para os créditos finais do filme, mas também em dueto com Chico no álbum Chico Buarque – As Cidades.

Ostra
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