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A Música de Chico no Cinema
Entre o Rio e a França – 1984 a 1989

PARA VIVER UM GRANDE AMOR

1984. Direção: Miguel Faria Jr.

 

A peça-show Pobre Menina Rica, de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra, surgida em 1963, foi reimaginada 20 anos depois no filme de Miguel Faria Jr. Em lugar de mendigos, moradores de uma favela ocupam apartamentos vazios da Zona Sul do Rio de Janeiro e instalam uma comunidade utópica. O tema de certa forma antecipava eventos das décadas seguintes, como as ocupações do Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST) e os rolezinhos em shopping centers.

 

No ar, a perspectiva de uma alegre revolução social. Djavan faz Vinicius, o poeta favelado que se apaixona e é correspondido por Marina (Patricia Pillar), filha de um rico empresário e namorada de um arrivista arrogante. Chico Buarque escreveu o roteiro junto com o diretor, enquanto Tom Jobim respondia pela direção musical. No pressbook do filme, Chico comentou suas intenções:

 

“A história de Vinicius e Carlos Lyra marcou um determinado momento da música brasileira. Para minha geração é um marco muito forte. Quando nós pensamos em retomar o Pobre Menina Rica, a intenção não era relembrar esse momento e ficar no plano do saudosismo. Miguel e eu nos sentamos, ouvimos as canções e achamos que ali mesmo estavam as indicações do Vinicius para uma projeção dessa historiazinha passada num Rio que nem existe mais, e que talvez nunca tenha existido, uma projeção para o futuro. Um futuro utópico que tem algo a ver com uma busca do que seria um Rio de Janeiro habitável, onde as pessoas pudessem conviver, onde não houvesse tanta desigualdade. E nos lembramos de uma frase do Tom Jobim: 'que a sociedade ideal seria uma Ipanema onde coubesse todo mundo'”.

 

Chico confessou que escreveu um texto mais afeito ao teatro, e que Miguel “teve que aparar muito o meu trabalho, quase que traduzir a linguagem de teatro para cinema”. Na verdade, mais que um filme musical, Para Viver um Grande Amor é uma comédia social com música. Os números musicais não têm dança e, em sua maioria, não se amoldam bem à dramaturgia. Encantam mais pela beleza das melodias e das letras, assim como pela qualidade das vozes.

 

São 11 canções, sendo três de Carlos Lyra e Vinicius, uma de Tom Jobim e Vinicius (as do espetáculo original), e uma nova de Djavan. As seis restantes, compostas para o filme, têm participação de Chico. A primeira a entrar é Sinhazinha (Despertar), música e letra de Chico. Ela marca a relação afetuosa entre a empregada Maria Moita (Zezé Motta, a dona da voz) e a patroazinha Marina numa cena que seria inconcebível 40 anos mais tarde.

 

Elba Ramalho aparece como uma imigrante nordestina, mãe de sete filhos, entoando A Violeira, parceria de Tom e Chico. Djavan e Patrícia fazem um belo dueto em Imagina, também de Tom e Chico, sendo que a voz feminina é de Olivia Byington, esposa de Miguel Faria Jr. e inicialmente cogitada para fazer o papel de Marina. Djavan canta Tanta Saudade, composta por ele com letra de Chico.   

 

Sinhazinha volta à cena, com o subtítulo Despedida, quando Marina se despede da empregada antes de embarcar para o exterior. A voz de Marina é sempre de Olivia Byington. Sérgio Ricardo dubla Nelson Xavier no Samba do Grande Amor, de Chico, numa roda de samba que marca, ao mesmo tempo, a aparente derrocada amorosa de Vinicius e o companheirismo dos amigos. Por fim, o casal Vinicius e Marina interpreta o samba-canção Meninos, eu Vi, música de Tom Jobim com letra de Chico.

MAINE OCÉAN

1986. Direção: Jacques Rozier

 

O choro Meu Caro Amigo, de Francis Hime e Chico Buarque, tem sua introdução instrumental tocada nos créditos de abertura e encerramento dessa comédia francesa sobre a amizade de uma dançarina brasileira com uma advogada parisiense, um marinheiro e dois fiscais ferroviários franceses. No trem Maine-Océan, Dejanira (Rosa-Maria Gomes) é confrontada por dois fiscais e ajudada por Mimi (Lydia Feld). Em meio a vários quiproquós, os personagens se reencontram, acrescidos de um produtor artístico mexicano (Pedro Armendariz), em torno de um piano para executar Meu Caro Amigo. Dejanira vai cantar sua primeira estrofe com afinação menos que sofrível.   

A BANDA DO CHICO DE HOLANDA

1986. Direção: Fernando Midões (Portugal)

 

Filme realizado para a TV portuguesa RTP. Sinopse e trilha sonora desconhecidas. Não consegui acesso ao filme.

DIAS MELHORES VIRÃO

1989. Direção: Cacá Diegues

 

Quase 30 anos antes de realizar sua versão de O Grande Circo Místico, Cacá Diegues já incluía a canção Beatriz em Dias Melhores Virão. Ela atravessa dois momentos opostos na história de Marialva (Marília Pera), dubladora que sonha em ser estrela de Hollywood. Enquanto mantém um flerte com Pompeu (Paulo José), o diretor do estúdio de dublagem – que também sonha com a direção de cinema –, Marialva se vê cortejada como atriz com o glamour de um set de filmagem. Mas eis que a realidade é outra: uma estada melancólica num quarto de hotel com Pompeu.   

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