A Música de Chico no Cinema
os mais recentes – 2022 a 2025
A FANTÁSTICA FÁBRICA DE GOLPES
2022. Direção: Victor Fraga e Valnei Nunes
A fábrica referida no título desse documentário é, por definição, a Rede Globo. Mas, diante de tudo o que é exposto, pode ser interpretada também como a mídia corporativa brasileira em geral, o governo dos EUA e mesmo as tradições do Brasil ou da América Latina, pródigos em golpes de estado. O filme tece uma vasta argumentação coral para evidenciar as maquinações do sistema Globo – mas não só deles – no sentido de demonizar os governos do PT, derrubar Dilma Rousseff e forjar presunções de culpa contra Lula.
Entrevistado, Chico Buarque não dissimula sua objeção à censura e ao apoio à ditadura exercidos pela Globo. “Eu perdi minha música”, comenta sorrindo a respeito de Pelas Tabelas, que falava dos panelaços da campanha das Diretas Já e foram retomados pela extrema-direita para o golpe de 2016. O samba é ressignificado ironicamente com as imagens dos protestos anti-PT, na voz da cantora baiana Josyara.
Nos créditos finais, o grupo Francisco El Hombre faz uma belíssima interpretação de Roda Viva, que inclui uma citação a Apesar de Você. Ambas as gravações foram produzidas originalmente para o documentário, disponível neste link (acessado em fevereiro de 2026).
MUSSUM, O FILMIS
2023. Direção: Silvio Guindane
Duas canções de Chico ganham conotações cômicas nessa cinebiografia de Antônio Carlos Bernardes Gomes, o Mussum. O filme reconstrói algumas gags humorísticas do quarteto Os Trapalhões. Numa delas, Mussum (Ailton Graça) aparece travestido de devota do candomblé ao ritmo de Morena de Angola. Em outra, ele chega bêbado em casa como o segundo personagem de Teresinha, sendo esperado por uma Teresinha divertidíssima na pele de Gero Camilo. As vozes são, respectivamente, de Clara Nunes e Maria Bethania.
PELE DE VIDRO
2023. Direção: Denise Zmekhol
O documentário combina as memórias da diretora sobre seu pai, o arquiteto Roger Zmekhol, com o destino de sua maior criação, o edifício conhecido como Pele de Vidro. Projeto inovador dos anos 1960 no centro de São Paulo, o prédio serviu sucessivamente de sede empresarial, unidade da Polícia Federal e, depois de anos abandonado, moradia de famílias sem-teto até o incêndio e o desabamento em 2018.
Em dois momentos de suas lembranças de infância, mescladas com os ecos do golpe de 1964, Denise insere canções de Chico. O samba Você não Ouviu sublinha o contraste entre as imagens idílicas das crianças e os golpes da repressão. Mais adiante, Apesar de Você exemplifica as “músicas de protesto” que Denise costumava ouvir com o pai.
PAU D’ARCO
2025. Direção: Ana Aranha
Assentamento, composta originalmente para O Sonho de Rose, ressurge nos créditos de encerramento desse documentário de impacto que recolhe os ecos de um massacre ocorrido em 2017. Naquela ocasião, a polícia civil matou dez trabalhadores sem terra entre os ocupantes da Fazenda Santa Lúcia, no município paraense de Pau d’Arco.
O ÚLTIMO AZUL
2025. Direção: Gabriel Mascaro
Na última cena dessa aventura de uma idosa pelos rios da Amazônia num Brasil distópico e etarista, irrompe a voz de Maria Bethania cantando Rosa dos Ventos. O filme assim procura associar a insubmissão de Teresa (Denise Weinberg) à “enchente amazônica” e à “explosão atlântica” citadas na canção. O caráter alegórico da letra de Chico se casa com a alegoria de Mascaro. Teresa recusa-se a ser recolhida à colônia compulsória de idosos instituída pelo governo e sai em busca de uma velhice com autonomia. “Amanheceu o espetáculo”.