os livros de chico no cinema
Estorvo
ESTORVO
1999. Direção: Ruy Guerra
Ler o livro de Chico Buarque pode não ser essencial para compreender o filme de Ruy Guerra, mas ajuda muito. Não que Estorvo seja desprovido de qualidades suficientes para se sustentar enquanto cinema – o que, aliás, tem de sobra. Mas não há como negar que o seu maior mérito foi ter encontrado a linguagem, o tom e a atmosfera ideais para transpor o texto à tela. Quem achou o livro vago, pretensioso ou exageradamente confuso provavelmente aplicará os mesmos adjetivos ao filme, com alguns agravantes. Já quem apreciou perder-se no pesadelo labiríntico brilhantemente proposto por Chico terá o mesmo prazer diante das imagens de Ruy.
Desde a primeira cena, somos atirados num mundo abstrato, mas construído à base de coisas bem concretas, como pão com geleia, roubo de joias, malas conduzidas de lá para cá, vacas lambendo janelas de carros. O protagonista (Jorge Perugorría), homem sem nome nem documentos, acorda com o toque insistente da campainha e a imagem de um estranho no seu olho mágico. Daí em diante, ele e nós somos arrastados numa fuga kafkiana para lembranças de um passado duvidoso, encontros com rostos familiares e outros desconhecidos, cenários cada vez mais inóspitos que só podem ser localizados no mapa do inconsciente. Após roubar as joias da irmã e inundar a casa da ex-mulher, o protagonista embarca numa sucessão de escapadas, sequestros e acidentes. Somos levados a imaginar ora que se trata de um sonho, ora de uma trip paranoica, ou quem sabe um fluxo mental vertiginoso de alguém que chega à hora da morte.
Melhor não perguntar, pois Estorvo retira seu fascínio justamente do não saber. Além do dédalo espacial e temporal já contido no livro, o filme acrescenta um emaranhado de sotaques: falam-se espanhol, portunhol, português brasileiro e o acento lusitano do próprio Ruy Guerra, cujas pequenas intervenções em off remetem a narrativa à primeira pessoa. Mas trata-se de uma primeira pessoa conflitada. O Eu e o Outro são instâncias que se imbricam como num jogo de espelhos e especulações.
Se o livro de Chico Buarque tinha a vantagem de ser extremamente visual, uma vez que o personagem relata e elabora a partir de tudo o que vê, havia ali um fator de dificuldade aparentemente intransponível: a perspectiva saltava a todo momento para outros personagens, como se Eu fosse capaz de ver a si próprio de um ponto-de-vista exterior. Para recuperar essa oscilação, Guerra empregou o recurso mais cinematograficamente natural, embora de realização nada simples: a câmera é o Outro.
Manejada com grande perícia por Marcelo Durst, a câmera é esse duplo que se impõe como presença específica na maioria das cenas, espreitando a ação por frestas, cruzando o eixo da representação. A impressão que se tem é de estar diante de um mundo caleidoscópico onde tudo é dotado de olhos. As distorções, que começam no olho mágico, estendem-se a uma galeria de tipos excêntricos e a uma geografia insólita, onde locações brasileiras, cubanas e portuguesas se fundem numa única cidade, que, afinal, é pura abstração.
O som do filme é esculpido com refinamento, visando gerar no espectador sensações quase concretas de descentramento e aflição. Estorvo não quer nos contar a história de um anônimo em crise, mas colocar-nos dentro da sua própria vertigem. Vemos e ouvimos um pouco como ele. Estamos na mente de um animal acuado, que se volta bruscamente para os lados, resfolega e corre para onde pode.
Diferentemente do livro, a ação do filme é dividida em “dias”. Algumas cartelas escritas substituem blocos de ação ou sublinham certos pensamentos do narrador. uma das aparições da personagem “Magrinha” é acompanhada de uma versão distante, quase fantasmática, da canção Pedaço de Mim (veja em A música de Chico no cinema).
À época do lançamento, em entrevista a Luiz Carlos Merten (O Estado de S.Paulo), Ruy Guerra dizia o que o atraiu nessa adaptação: "Foi o olhar sobre o mal-estar moral e político da sociedade contemporânea, esse malaise que se acentuou com a derrocada das ideologias, mas também foi a questão da linguagem; uma, aliás, não exclui a outra."
