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o cinema na vida de chico

​Cinefilia ocasional

Como tanta gente, Chico Buarque também brincava de cineminha na infância. O seu era construído com uma caixa de sapatos provida de um buraco e uma lâmpada por trás. O filme era desenhado num papel branco afanado da mesa do pai, o historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Holanda. Junto com suas irmãs, ele colava o papel em dois lápis, que iam enrolando o “filme”, enquanto narrava as histórias inventadas, geralmente de bangue-bangue.

 

As idas ao cinema de verdade, em sua maioria, eram conduzidas pela babá. Suas lembranças incluem muitas chanchadas brasileiras, operetas e musicais da Metro. Volta e meia ele cita o épico Sansão e Dalila (Samson and Delilah, 1949), o musical Alta Sociedade (High Society, 1956) e o drama Férias de Amor (Picnic, 1956). Saiu da sessão do musical Lili (1953) apaixonado por Leslie Caron. A canção Hi-Lili Hi-Lo fez morada em sua cachola por semanas.

 

Em Roma, para onde a família se mudou em 1953, então com nove anos, Chico costumava frequentar os cinemas Rex, no Corso Trieste, Capranica e Capranichetta, estes no bairro Colonna. Todos eles hoje convertidos para outras atividades. O Rex tinha a vantagem de um teto retrátil que se abria nos intervalos entre as sessões, convidando o luar para seu interior. A comédia romântica Pão, Amor e Fantasia (Pane, Amore e Fantasia, 1953) é uma lembrança forte desse período. No livro Chico Buarque Para Todos, sua biógrafa Regina Zappa conta que uma certa noite ele viu Federico Fellini sair do restaurante Al Moro “e emudeci, porque me pareceu que viesse a cavalo”.

 

Nessa época, Chico lia romances populares de Emilio Salgari, muito embora não cite nenhuma das inúmeras adaptações de seus livros para o cinema de aventuras italiano da época silenciosa. Mais frequentes são as lembranças dos westerns degustados nas ruidosas matinês de sábado no Cine Rex. No romance semi-autobiográfico Bambino a Roma, Chico descreve uma sessão de O Cangaceiro (1953) dublado em italiano no Rex:

Texto O Cangaceiro.jpg

Chico viveu em Roma em duas temporadas. A primeira, entre 1953 e 1955, quando Sérgio Buarque de Holanda foi convidado para assumir a recém-criada cadeira de Estudos Brasileiros na Universidade de Roma. A segunda, quando precisou exilar-se da ditadura brasileira entre 1969 e 1970. Em Bambino a Roma, ele narra diversos episódios e faz considerações ligadas ao cinema, sempre no lusco-fusco entre memória e invenção (veja em O cinema nos livros de Chico).

 

Na juventude, arrebatado pelo tanto que admirava Orfeu Negro (1959), de Marcel Camus, Chico decidiu subir o morro da Babilônia, locação principal do filme. Queria ver o Rio lá de cima. “Subia a favela numa boa. E a favela descia para a praia numa boa.”, recordou para o livro de Regina Zappa. Essa pequena aventura iria ecoar no seu conto Copacabana, em que uma fictícia Ava Gardner, em visita ao Rio, tem o mesmo desejo (veja em O cinema nos livros de Chico).

   

A família tinha videocassetes de Charles Chaplin, e Silvia Buarque se lembra de muitas sessões de cinema em Petrópolis, onde morava o avô. A filha se recorda da admiração do pai por Amor, Sublime Amor (West Side Story, 1961) e da emoção dele ao sair de A Vida é Bela (La Vita è Bella, 1997), visto pelos dois em Paris. Mais recentemente, Chico instou Silvia a assinar a plataforma de streaming Mubi para conferir Dias Perfeitos (Perfect Days, de Wim Wenders, 2023). 

 

Silvia contou-me ainda que Chico gostava muito de Eduardo Coutinho. Certa feita, convidou-o para um show, assegurando que o cineasta adicto teria permissão para fumar no seu camarim.

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