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o cinema nos livros de chico
Anos de Chumbo e outros contos

2021

A intensa visualidade dos romances de Chico Buarque se estende também a seus contos, marcados mais pelas ações concretas, visões e suposições dos personagens do que por elementos mais abstratos. Os contos O Passaporte e O Sítio podem ser vistos como argumentos prontos e detalhados para possíveis curtas-metragens.

 

Menções esparsas ao cinema aparecem em Os Primos de Campos: “Graças a esse tipo de diário ela [minha namorada] se aproximou de mim na escola, pois é dada à leitura, pretende estudar letras e jornalismo, se possível escrever roteiros para cinema e televisão” (...) “A orquestra faz uma pausa no filme épico da televisão, e pela janela se ouve o batuque do terreiro de candomblé”. E também em Clarice Lispector, protagonizado por um fã alucinado da escritora: “Tocou a campainha com suor nas mãos e, mais que frustração, sentiu alívio ao saber pela empregada que Clarice Lispector tinha saído para o cinema.”    

 

No conto Copacabana abundam as referências a grandes nomes do cinema internacional. O narrador em primeira pessoa é um menino de 16 anos, habituê das ruas de Copacabana e dado a sonhar com artistas. Num fluxo delirante, ele ciceroneia Pablo Neruda pelas ruas menos ensolaradas do bairro. Neruda lhe conta que Ava Gardner certa vez “se encantou com o crooner do bar do Copacabana Palace e o convidou a subir à sua suíte. Ao vê-la nua, o sujeito quedou mesmerizado para sempre, levando-a a atirar copos, garrafas, jarros de flores, telefones e cadeiras pela janela”.

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Eis que de repente é o próprio eu do conto que se vê topando com Ava Gardner no elevador e levando-a para um passeio: “... fazia questão de subir ao morro onde rodaram o filme Orfeu Negro, musical a que ela assistira várias vezes.” Depois que a estrela se manda na garupa de um motoqueiro valentão, o menino volta ao hotel “sem saber como me explicar ao diretor do filme, John Huston, que deixara Ava Gardner aos meus cuidados. Encontrei-o a beber com o ator Richard Burton na piscina do Copacabana Palace, os dois aparentemente despreocupados com o sumiço da diva problemática. Aliás, já estavam de olho numa substituta, a atriz alemã Romy Schneider, que vi deitada numa espreguiçadeira lendo o roteiro de A Noite do Iguana.” Levando o delírio adiante, Romy lhe pede um cigarro, deixa-se envolver por um roupão felpudo com o monograma do hotel e o segue até o Golden Room.

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