o teatro de chico no cinema
Os Saltimbancos
OS SALTIMBANCOS TRAPALHÕES
1981. Direção: J.B.Tanko
Em 1976 surgiu na Itália o álbum I Musicanti, com canções de Luis Enríquez Bacalov e Sergio Bardotti. O conjunto de músicas narrava uma fábula inspirada em Os Músicos de Bremen, dos Irmãos Grimm. Cansados da exploração do seu dono, uma gata, um burro, um cachorro e uma galinha se juntam para fugir para a cidade grande em busca de liberdade. O disco rendeu um espetáculo pouco assistido na Itália.
Bacalov fez trilhas para dezenas de filmes italianos, entre os quais A Cidade das Mulheres, de Fellini. Bardotti (1939-2007), por sua vez, foi um grande amigo de Chico Buarque e tradutor de seus livros para o italiano. Em 1977, Chico adaptou a história e as músicas ao contexto brasileiro e, junto aos dois italianos, criou canções adicionais para a peça musical Os Saltimbancos.
Três anos depois, novamente com Bacalov e Bardotti, Chico compôs seis novas músicas para o filme Os Saltimbancos Trapalhões, que levou mais de 5 milhões de pessoas ao cinema. Os animais deram lugar a personagens humanos, um grupo de saltimbancos que trabalham como faxineiros no circo. O enredo se vale de disputas amorosas, de vilanias do mágico e sua assistente, da arrogância do barão proprietário e das habituais trapalhadas do quarteto.
A comédia inclui nove canções, todas assinadas pelo trio BBB (Bacalov-Bardotti-Buarque). Das originais da peça constam apenas História de uma Gata, Minha Canção e Todos Juntos. As demais foram compostas para o filme.
As cenas de abertura são embaladas em ritmo veloz por Rebichada, a música do cachorro, na voz de Chico e coro infantil. História de uma Gata, cantada por Lucinha Lins, leva os cinco personagens principais ao centro do picadeiro, onde vemos que Dedé Santana representa o cavalo, Mussum, o cachorro e Zacarias, a galinha. Ivan Lins faz uma ponta ao piano. A picaresca Piruetas, interpretada por Chico Buarque e os Trapalhões, serve à apresentação de todas as habilidades circenses, acompanhadas das reações do público.
Meu Caro Barão, com sua letra “datilográfica” cheia de erros propositais, perde muito do sentido na forma como foi aplicada em mera sequência de passagem. As vozes são de Chico e dos Trapalhões. Para o número Hollywood, na interpretação de Lucinha Lins, o cenário dominante do Circo Bartholo é trocado pelos estúdios turísticos da Universal, em Los Angeles, com referências a Cabaret, westerns e filmes de ficção científica.
Bebel Gilberto e coro cantam Alô, Liberdade enquanto os saltimbancos pegam a estrada rumo à cidade grande. Lá chegando, são perseguidos pela polícia como artistas de rua e pichadores ao som de A Cidade dos Artistas na voz de Elba Ramalho. Minha Canção é um acalanto na cidade noturna, cantado por Lucinha Lins. Junto com os Trapalhões e coro, Lucinha interpreta ainda Todos Juntos, tema da confraternização dos fracos, quando artistas e público se juntam para reivindicar a propriedade do circo. Uma forma de revolução social para condizer com os ideais progressistas de Chico Buarque.
OS SALTIMBANCOS TRAPALHÕES RUMO A HOLLYWOOD
2017. Direção: João Daniel Tikhomiroff
A segunda versão do sucesso de 1981 foi precedida de um espetáculo teatral de Claudio Botelho e Charles Moeller, que em 2014 levou Renato Aragão pela primeira vez ao palco. O filme tem produção caprichada, com flertes à estética dos musicais de Hollywood e da Broadway. Na intriga, o circo Sumatra está em decadência porque foi proibida a apresentação de animais. O gerente inescrupuloso quer usá-lo para eventos políticos, leilão de gado, etc. Com base nos seus sonhos de Hollywood, Didi Mocó escreve um espetáculo capaz de trazer o público de volta e salvar o circo original.
Os números musicais são mais ambiciosos em termos de coreografia e cenografia. Além das nove canções do primeiro filme, este introduz mais uma, Um Amor Natural, letra e música de Chico Buarque, que embala uma cena inspirada em A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen. Nos créditos iniciais, ouvimos Bicharia, versão original da peça, refeita como Rebichada para o filme de 1981. Piruetas ganha uma interpretação coletiva cheia de energia, enquanto Minha Canção vem com um coro de vozes bem matizado e remete a uma Hollywood noturna.
Todos Juntos entra duas vezes no filme, a primeira como uma espécie de ensaio para a segunda, quando a trupe se une para confrontar o prefeito que pretende derrubar o circo. Meu Caro Barão recebe um tratamento mais condizente do que em 1981, com Dedé datilografando numa máquina sem acentos a letra da música cheia de tônicas nas sílabas erradas. A influência do musical Cats fica evidente no número História de uma Gata.
A cidade fictícia de Barra Feia dá as caras em A Cidade dos Artistas, quando a trupe sai para divulgar o novo espetáculo. Hollywood marca o clímax com um misto de Broadway e circo. Por fim, o filme escancara sua homenagem a Renato Aragão ao som de Piruetas.
Já sem Mussum e Zacarias, Renato e Dedé protagonizam o filme junto com um elenco em que se destacam, atuando e cantando, Letícia Colin, Alinne Moraes, Emilio Dantas e Livian Aragão.
Em outubro de 2025, aos 90 anos de idade, Renato Aragão voltou aos palcos com o espetáculo Saltimbancos Trapalhões in Concert, com direção de Claudio Botelho e Charles Moeller. A seu lado no elenco estavam Letícia Colin, Marcelo Serrado, Lucinha Lins, Malu Rodrigues, Fernando Caruso, Adriana Garambone e o grupo infantil Dó Ré Mi.
OS SALTIMBANCOS
Projeto
Em novembro de 2024, a Disney anunciou que iria produzir uma versão em animação de Os Saltimbancos, dirigida por Carlos Saldanha (A Era do Gelo, Rio), com direção musical da cantora e compositora Maria Gadú.