A Música de Chico no Cinema
de ipanema a ipanema - 1967 a 1975
GAROTA DE IPANEMA
1967. Direção: Leon Hirszman
Além de sua pequena participação como ator em três cenas (veja capítulo Chico ator de cinema), Chico tem inseridas no filme as canções Chorinho e Noite dos Mascarados.
A primeira é interpretada por ele ao violão num típico sarau musical de apartamento nos tempos da Bossa Nova. É acompanhado ao piano por Luiz Eça e ouvido por Márcia Rodrigues, Irene Stefania e Arduíno Colasanti. Alguns flashbacks são inseridos em meio à canção.
A segunda é o tema apoteótico que encerra o filme num grande baile de Carnaval no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Aqui Ruy Solberg, no papel do Pierrô, e Márcia Rodrigues como a Colombina fazem sincronia labial com as vozes de Chico e Elis Regina. A marchinha Noite dos Mascarados foi composta originalmente para o show Meu Refrão, idealizado por Hugo Carvana e Antonio Carlos Fontoura, com 16 canções de Chico interpretadas pelo próprio, por Odete Lara e pelo MPB-4 na boate Arpège (Rio).
CLEO E DANIEL
1970. Direção: Roberto Freire
O tema instrumental de Rosa dos Ventos toca três vezes nesse drama psiquiátrico adaptado pelo psicoterapeuta e escritor Roberto Freire de seu romance best-seller homônimo. Na história, inspirada em Dáfnis e Cloé, cruzam seus caminhos um psiquiatra pouco ortodoxo (John Herbert) e dois jovens desajustados: Cleo (Irene Stefania), desejosa de viver o amor livre, e Daniel (Chico Aragão), viciado em psicotrópicos.
O filme é ousado, visceral e irregular, tocando em temas como aborto, estupro, drogas, homossexualismo, câncer terminal, eletrochoques, prostituição, podofilia e suicídio. A música de Chico substitui os diálogos em cenas de sexo heterossexual e em outra de insinuação do amor de Marcus por seu amigo Daniel.
UN SÉJOUR
1970. Direção: Cacá Diegues
Durante sua temporada de exílio na França, entre 1969 e 1971 (em parte coincidente com a de Chico na Itália), Cacá Diegues foi convidado pela TV francesa a fazer um documentário para a série Carnets de Voyage en France, dedicada à visão do país por cineastas estrangeiros. Além dele foram convidados Jacques Goudebout (Canadá), Henrick Stangerupt (Dinamarca), Eugen Andrikanis (da então União Soviética), Robert Hughes (EUA) e Krsto Papic (Iugoslávia).
No seu documentário, Cacá incluiu cenas de alguns filmes franceses para comentar que conheceu a França, antes de mais nada, pelo seu cinema. Mas o que prevalece no programa é o modelo do cinema-verdade. O diretor e equipe saíram pelas ruas de Paris perguntando o que as pessoas achavam da França. Colheram impressões de orgulho, deslumbramento e empáfia, mas também de crítica social. Na região do Midi (sul do país), encontraram uma pequena cidade habitada por aposentados desiludidos com a França e uma favela miserável onde viviam imigrantes portugueses e argelinos. Esses trechos foram censurados pela TV francesa, que no entanto facultou a Cacá o direito de usar o material para editar a sua própria versão.
É nessa montagem de Un Séjour, realizada por Eduardo Escorel, que vamos encontrar duas inserções de Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque. Ambas fazem alusões, direta ou indiretamente, ao Brasil. Na primeira, Cacá está folheando um jornal que noticia o tricampeonato de futebol conquistado pela seleção brasileira e o Carnaval, motes de uma rápida conversa com a equipe sobre a importância dessas efemérides. A segunda inserção recai sobre panorâmicas dos barracos de madeira da bidonville francesa, imagens em tudo semelhantes às das favelas brasileiras mais indigentes da época.
QUANDO O CARNAVAL CHEGAR
1972. Direção: Cacá Diegues
Chico foi chamado para fazer músicas para o filme, mas passou a opinar sobre o argumento e acabou como ator no papel de Paulo. Compôs sete canções, a saber: Quando o Carnaval Chegar, Caçada, Partido Alto, Baiock, Bom Conselho, Soneto (de Mimi) e Mambembe. Pela primeira vez, Chico compunha músicas na fase de pré-produção para serem cantadas durante as filmagens.
As canções são inseridas de diversas maneiras. Ora são cantadas diegeticamente pelos atores-cantores como parte das cenas, ora apenas cobrem imagens, como a Caçada entre Paulo e Virgínia ou tomadas documentais da Avenida Presidente Vargas sendo preparada para os desfiles de Carnaval.
Ao contrário do que se pensa, a canção homônima de Chico não foi feita a partir do título do filme, mas o contrário. O filme se chamaria “Tudo Legal”, mas o título teve que ser mudado por questão de direitos autorais. A escolha recairia, então, por uma das canções já compostas por Chico, no caso Quando o Carnaval Chegar.
Veja também a participação de Chico como ator nesse filme.
JOANNA FRANCESA
1973. Direção: Carlos Diegues
Chico tinha “adoração” por Jeanne Moreau desde que a viu no papel escandaloso de Os Amantes, de Louis Malle. Compôs a canção-tema de Joanna visando facilitar a pronúncia de Jeanne mediante o jogo de palavras entre o português e o francês. Além disso, assinou a direção musical do filme com Roberto Menescal.
A valsa Joanna Francesa aflora três vezes no filme. Na primeira, Jeanne canta glamourosamente para os frequentadores do bordel em São Paulo, onde conhece o Coronel Aureliano (Carlos Kroeber) antes de partir com ele para sua fazenda em Alagoas. Na segunda, volta a entoá-la em tom mais acelerado e jocoso na festa de despedida da Fazenda Santa Rita, acompanhada ao piano por seu pretendente Pierre (o estilista Pierre Cardin). Na terceira vez, a canção ressurge na voz de Fagner enquanto Joanna “cavalga” o seu criado (Eliezer Gomes).
Embora tenha sido dublada por Fernanda Montenegro nos diálogos da versão brasileira, Jeanne Moreau usa sua própria voz na canção.
VAI TRABALHAR, VAGABUNDO
1973. Direção: Hugo Carvana
Para introduzir e comentar as aventuras do malandro Secundino Meirelles (Carvana), Chico compôs duas de suas melodias mais alegres e propulsivas. A música-título abre o filme em tom de euforia, com a saída de Secundino da prisão e seu desfrute da liberdade nas ruas do Rio. A letra, porém, faz um contraponto pessimista, anunciando a submissão do malandro à “correnteza” do trabalho e de uma vida medíocre, que acaba mesmo com a morte “na paz de Deus”.
Ela volta a aparecer em outra sequência de arrebatamento, quando Dino leva uma garrafa de cachaça para seus amigos internados num sanatório e organiza sua fuga.
Por sua vez, a dionisíaca Flor da Idade descreve a chegada do primeiro amor numa comunidade definida em torno da comida e do sexo. Uma “garota de Ipanema de subúrbio”, no dizer de Lorenzo Mammi, mexe com a libido dos marmanjos da vila antes que a canção se conclua com uma paródia transgressora do poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade.
No entanto, sua inclusão no filme atende a objetivos bem distintos. Na primeira vez, festeja a satisfação de Dino e da sua família e vizinhos ao vê-lo de volta da prisão, motivo para uma cervejada coletiva. Na segunda, embala a confraternização ambulante do elenco nas ruas, a que se seguem os créditos finais. Em 1975, Flor da Idade entraria no repertório da peça Gota d’Água, de Chico e Paulo Pontes.

Manuscrito de Chico Buarque
(clique na imagem para ampliar)
IPANEMA ADEUS
1975. Direção: Paulo Roberto Martins
Um empresário carioca em crise existencial (Hugo Carvana) resolve se mudar para a Bahia e mudar de vida. Uma das razões de seu desconforto é o sogro (Ênio Santos), homem conservador que detesta Chico Buarque à exceção de A Banda. Um disco tocando Fado Tropical é motivo para mais uma discussão em cena do filme.