A Música de Chico no Cinema
Por todos os gêneros - 2009 A 2021
É PROIBIDO FUMAR
2009. Direção: Anna Muylaert
A comédia romântica de Anna Muylaert, uma das melhores do gênero já feitas no Brasil, tem Chico Buarque como um dos pontos de discórdia entre a professora de violão Baby (Glória Pires) e seu vizinho e namorado Max (Paulo Miklos), músico e cantor de restaurantes. Ela é fã ardorosa de Chico, que ele considera “meio devagar”, preferindo Jorge Ben Jor. Numa cena, eles discutem rapidamente sobre isso. Nos créditos finais, em remix de André Abujamra, Glória Pires canta Tatuagem, parceria de Chico com Ruy Guerra.
Anna Muylaert tem outras referências a Chico em sua obra: o telefilme E Além de Tudo me Deixou Mudo o Violão e o longa Geni e o Zepelin.
BUDAPESTE
2009. Direção: Walter Carvalho
Num acréscimo bem-humorado da adaptação cinematográfica, José (Leonardo Medeiros), em uma de suas voltas ao Rio de Janeiro, se delicia numa caminhada pela praia ouvindo uma roda de samba cantar Feijoada Completa. Em sua imaginação, a letra se faz ouvir em versão bilíngue, alternando o português com o húngaro. Na conclusão da cena, um vendedor de mate gelado ainda se dirige a ele, arrematando: “Está à toa na vida?”.
AS CANÇÕES
2011. Direção: Eduardo Coutinho
No filme em que Eduardo Coutinho recolheu histórias e performances de canções que marcaram a vida de pessoas comuns, Retrato em Branco e Preto foi a escolhida por Silvia. Ela destacou os versos "Já conheço os passos dessa estrada / Sei que não vai dar em nada" como síntese da sua relação com o grande amor da sua vida, de quem se separou depois de 30 anos de uma ligação tortuosa.
Em tom de desabafo terapêutico, Silvia narra sua história e canta a música de Chico a capella, assim como todos os demais personagens de As Canções.
DUE FRATELLI
2013. Vídeo. Direção: Laerte Marquesini e Daniel Lellis Siqueira
Sinopse desconhecida. Na trilha sonora constam as canções Morro Dois Irmãos, de Chico, e Sobre Todas as Coisas, de Edu Lobo e Chico.
Não consegui acesso ao vídeo.
HOMEM COMUM
2014. Direção: Carlos Nader
Nesse documentário bastante incomum, Carlos Nader criou relações ambiciosas entre a vida de um caminhoneiro paranaense, que ele acompanhou por quase 20 anos, e o clássico luterano A Palavra, de Carl Dreyer. O filme é uma reflexão sobre certas propriedades do cinema, como voltar no tempo, fazer ressurgirem os mortos, juntar o prosaico e o sublime.
Homem Comum incorpora trechos do curta Trovoada, realizado com o mesmo caminhoneiro em 1995. Numa dessas cenas, Nader substituiu o som original do rádio do caminhão por O Cio da Terra, parceria de Chico com Milton Nascimento, na interpretação da dupla sertaneja Pena Branca e Xavantinho. A decisão foi tomada depois que Nader filmou o personagem cantando essa música num pequeno coral em atividade da Prefeitura de Ponta Grossa (PR).
Embora sem conotação religiosa, O Cio da Terra remete a um contexto de transcendência quando menciona “o milagre do pão”.
QUE DIA É HOJE?
2015. Direção coletiva. Portugal
Esse curta documentário de animação foi realizado por integrantes do Centro Juvenil de Montemor-o-Novo (Portugal) e o Coletivo Fotograma 24. Com boa dose de criatividade visual, Que Dia é Hoje? recolhe fragmentos de áudios de entrevistas com pessoas de uma geração que viveu os 40 anos da ditadura salazarista e também os 40 de vida democrática.
Fala-se da vida dura e da repressão durante o período ditatorial, mas as queixas se estendem também à desilusão com a Revolução dos Cravos, que não atendeu aos anseios pela reforma agrária, nem impediu os efeitos econômicos danosos da globalização. As últimas imagens, de beira-mar, são sonorizadas com a voz de Chico Buarque cantando Tanto Mar. O trecho inclui o lamento “Já murcharam tua festa, pá”.
A íntegra do curta está disponível neste link (acessado em fevereiro de 2026).
DESAPARECIDOS
2017. Direção: Danddara
A canção Pedaço de Mim, cantada pela diretora e atriz Danddara (Ana Cristina Carvalho Rodrigues) e simultaneamente declamada pela voz de Augusto Spoto, ocupa o terço final desse curta. Entre muitas imagens de cruzes e sem diálogos, a personagem caminha longamente por um cemitério em busca dos restos de seu companheiro, desaparecido em 1970 durante a ditadura brasileira. Frustrada a procura, ela ritualiza uma despedida simbólica envolvendo uma jaqueta de camuflagem do companheiro perfurada por uma bala.
O filme é dedicado “aos presos políticos brasileiros que nunca foram reencontrados”. Incorporo abaixo o teaser do curta, uma vez que a diretora não autorizou a reprodução do trecho completo com a música de Chico.
DUAS DE MIM
2017. Direção: Cininha de Paula
Comédia sobre dupla personalidade. A batalhadora Suryellen (Thalita Carauta) vende quentinhas e trabalha num restaurante chique. Assoberbada, de repente vê seu desejo se realizar: vira duas pessoas, iguais até certo ponto. O que começa por resolver seus problemas acaba virando um problema a mais quando ela participa de um concurso de gourmets. Um pequeno trecho de Cotidiano, de Chico Buarque, embala uma sequência de montagem que sintetiza o momento da vida de Suryellen. A canção vem numa versão samba-reggae de Marcelinho da Lua e Seu Jorge.
MEU TIO JOSÉ
2021. Direção: Ducca Rios
O longa de animação baiano conta a história real do professor, desenhista e guerrilheiro José Sebastião Rios de Moura pelos olhos – melhor dizendo, pelos ouvidos – de seu sobrinho Adonias. O menino é um alter ego do diretor Ducca Rios, sobrinho de José. Adonias precisa entregar uma redação na escola nos dias em que seu tio está entre a vida e a morte depois de ser baleado em uma farmácia, na Salvador de 1983. Ele estava de volta do exílio, para onde foi depois de colaborar no sequestro do embaixador estadunidense em 1969 como ativista da Dissidência da Guanabara.
Em meio à violência anticomunista e à campanha pelas Diretas Já, Adonias conhece os horrores da ditadura na figura de um colega extremista de direita e da repressiva diretora da Escola Presidente Costa e Souza. Curioso sobre o assunto, pede à avó, à mãe e ao pai que lhe contem a história do Tio José e de como ele se tornou “comunista”. Nos flashbacks, a voz de José é de Wagner Moura.
Cinco músicas de Chico Buarque integram a trilha sonora, quatro delas em ritmo de rock pauleira. Quatro estão em versão apenas instrumental, e três surgem em sequências fora da narrativa principal, condensando subtemas em linguagem não realista. Deus lhe Pague embala as visões apavorantes de Adonias a partir das imagens da diretora da escola, uma torturadora, e do colega boçal, enveredando por uma cidade ameaçadora onde circulam os coturnos militares. De O Que Será ouvimos apenas a introdução sob as diatribes da diretora contra o comportamento “subversivo” de Adonias.
Um sonho do menino ganha os acordes de Roda Viva. Adonias se vê abduzido pela comunicação de massa e pela linha de montagem industrial com citação de cena de Tempos Modernos, de Chaplin. O tema dialoga com o da peça homônima de Chico. Roda Viva volta mais duas vezes à trilha sonora. Na primeira, impulsiona um devaneio de Adonias no mundo dos grafites e da “Sociedade Alternativa”, acossado pelas figuras da repressão. Na segunda, o garoto é espancado pelo colega ultradireitista, que representa o aparato da violência ditatorial.
A melodia de Construção acompanha a desova de ativistas jogados ao mar pelos algozes da ditadura, por sua vez manipulados como títeres por um poder maior cheio de estrelas (EUA?). A sequência final, um grito de esperança na volta da liberdade, chega com Lirinha cantando uma versão desconstruída de Apesar de Você, que se mistura com os clamores de Diretas Já. Esta é a única composição inserida com letra.