A Música de Chico no Cinema
bye bye, ditadura - 1980 A 1982
BYE BYE BRASIL
1980. Direção: Cacá Diegues
A obra-prima de Cacá Diegues é um road movie anunciatório de um novo Brasil, fruto da modernização conservadora promovida pela ditadura militar. A televisão, a cultura pop e o imperialismo cultural ocupavam o lugar dos artistas mambembes e das atrações populares tradicionais. Cacá convidou Roberto Menescal para fazer a melodia-tema e Chico Buarque para ser o letrista.
Chico viu o filme montado e sonorizado antes de começar a compor, e pegou carona no ritmo estradeiro das imagens. A canção-título tem a forma de uma ligação por telefone público. No dizer do letrista, era “uma conversa fiada do personagem” desfiando suas andanças pelo país. Enfileira uma sucessão de fragmentos cuja combinação de sentidos vai “enlouquecendo” à medida que a música avança e as diversas paisagens brasileiras se sucedem, como na boleia do caminhão da Caravana Rolidei.
Chico fez “uma enxurrada” de versos para que Cacá aproveitasse o que quisesse. Muita coisa ficou de fora. É famosa a história de que Cacá pediu para citar a Rua do Sol, em Maceió, mas que mudasse o verso em que o personagem dizia ter pegado uma doença na capital alagoana, terra natal do diretor.
A versão com letra toca na abertura e no encerramento do filme, com andamentos e arranjos diferentes.
PERDOA-ME POR ME TRAÍRES
1980. Direção: Braz Chediak
No tempo em que frequentava as partidas de futebol na sede do Polytheama, Nelson Rodrigues Filho convidou Chico Buarque para fazer uma música para a adaptação da peça Perdoa-me por me Traíres, do seu pai, Nelson Rodrigues, que ele estava produzindo junto ao irmão Jofre Rodrigues. Mil Perdões, na delicadíssima interpretação de Gal Costa, é ouvida nos créditos iniciais e finais do filme, além de sonorizar duas cenas eróticas de Vera Fischer, uma com Nuno Leal Maia e outra com João Joedes.
Na trama, o fantasma da traição leva um casal ao inferno conjugal. Colegiais e prostituição, procissão e adultério, aborto e macumba, taras e suicídio são alguns dos contrastes sacrílegos ou simplemente escandalosos com que Nelson Rodrigues pinta nessa obra sua versão peculiar da lógica e dos pecados burgueses. A letra de Mil Perdões explora a contradição do título (o marido pede perdão por ser traído), mas desloca o eu lírico do homem para a mulher. Assim, a música funciona como uma resposta ao pedido de perdão do marido. É ela, na voz de Gal, quem diz: “te perdoo por te trair”.
EU TE AMO
1981. Direção: Arnaldo Jabor
A canção homônima, com melodia de Tom Jobim e letra hiperromântica de Chico Buarque, é mais contrastante que condizente com o tom irônico, satírico e frequentemente debochado do filme. A letra é o lamento de um homem que, recém-abandonado pela mulher, não sabe como prosseguir. Paulo, o industrial falido interpretado por Paulo César Pereio, foi de fato largado por Bárbara (Vera Fischer), mas logo trata de afogar suas mágoas na enxurrada sexual de Mônica/Maria (Sonia Braga), que ele toma como prostituta, mas na verdade foi também abandonada pelo amante casado (Tarcísio Meira).
A música apareceu primeiro em disco de 1980, mas havia sido composta especialmente para o filme, que só seria lançado um ano depois. Pontua o longa desde as cenas de abertura, na voz de Chico Buarque. Ressurge em arranjo instrumental e, mais adiante, em dois duetos de Chico com Telma Costa, funcionando como um comentário a diversos momentos da deriva emocional de Paulo.
Curiosamente, 15 anos depois desse filme, Chico faria um dueto com Branca Lima, filha de Telma Costa e Walter Lima Jr., na canção-tema de A Ostra e o Vento.
LINHA DE MONTAGEM
1982. Direção: Renato Tapajós
O documentário recupera a história das grandes greves metalúrgicas de 1978 e 1979 no ABC paulista, que mudaram a face do país. Começa e termina com duas profecias: Chico Buarque cantando “o que será que se veja passa por lá” e o próprio Lula antevendo que “vamos colher os frutos, quem sabe, dentro de alguns anos”. Havia, mais que qualquer outra coisa, a consciência de que nem tudo fora já conquistado, mas se formara um lastro de organização e representação dos trabalhadores, com a criação da CUT e do PT, a valorização das reivindicações operárias etc.
A letra da canção homônima de Chico, composta em parceria com Novelli, reproduz o ritmo repetitivo da linha de montagem, mas não deixa de festejar o poder dos trabalhadores para produzir e também para fazer greve: “Pois quem toca o trem pra frente / Também de repente / Pode o trem parar”. É tocada nos créditos de abertura e de encerramento, além de intervenções instrumentais em dois momentos do filme.