os livros de chico no cinema
Fazenda Modelo
LIN E KATAZAN
1979. Direção: Edgard Navarro
Esse curta baiano transpõe para a tela, em literalidade textual, um extenso parágrafo da “novela pecuária” Fazenda Modelo, que constitui um pequeno conto contido em si. O livro de Chico Buarque, lançado em 1974, é uma contundente alegoria do Brasil ditatorial cujos personagens são bois e vacas. Sob a liderança despótica de Juvenal, os animais da fazenda se submetem à opressão e são retratados como pessoas-bicho, com hábitos típicos da classe média brasileira da época.
No filme de Edgard Navarro não há animais, mas homens que trabalham numa obra da construção civil. Lin (Paulo Barata) é um operário franzino que usa as horas vagas para meditar em posições excêntricas e concentrar-se nos próprios corpo e consciência. Isso irrita o capataz Katazan (Alberto Leão), que passa a persegui-lo e se sente inferior. Como Lin não parece se abalar com o assédio, Katazan opta por matá-lo.
As imagens ilustram cada frase do texto. Sem diálogos, o curta tem trilha musical de Smetak e uma narração fiel ao trecho do livro, abaixo. As diferenças na ordenação das sentenças são mínimas. A mais importante é a troca de “Juvenal” por “o general”, assim explicitando a referência indireta do livro ao regime militar.
“Havia também os meninos que se mantinham aparentemente alheios ao movimento da Fazenda. Era o caso de Lin. Não que se manifestasse abertamente contra alguma coisa, isso não, até que acatava as instruções e comia na hora certa. Mas nas horas vagas Lin gostava dos seus cachos. Gostava de se cheirar as axilas, estalar as juntas, lavar as intimidades. Levava horas compenetrado, examinando cada detalhe do próprio corpo, parafusando o umbigo, achando graça nas mamilas, estudando o urbanismo das veias. Percorrendo as veias atingiu o coração e começou a compreender as pulsações todas. As vibrações. Talvez, por algum motivo, desgostoso das coisas em volta, Lin foi ficando todo para dentro. E foi ficando para longe, como que num oriente, como num tempo remoto, como um avô sábio, ficou feito um bos indicus. Já controlava de tal modo o coração que este nunca iria parar. Circulava pelas próprias artérias e chegou a explorar os nervos que levam ao cérebro. Daí poderia arbitrar a intenção de cada glândula, cada célula. Respirava com consciência. Com o pensamento poderia suspender a digestão agora, por exemplo. Mas Lin não praticava seus conhecimentos. Apenas conhecia, e sempre mais. Com isso se sentia forte, livre, dono de si, talvez até feliz. Foi o que alertou a vigilância de Katazan. Sem se explicar por que, Katazan não gostava da postura de Lin. Não sabia por que, mas implicava com aquele jeito assim. Então fazia-o trabalhar, e trabalhar puxado, do que Lin não se queixava por dominar os músculos. Suspendeu-lhe a ração, do que o organismo de Lin também não se ressentiu, posto que àquela altura já estava educado para tudo. Sem que Juvenal soubesse, Katazan começou a maltratar Lin. E Lin suportava tudo com uma serenidade que mais e mais irritava Katazan. Porque Katazan já não fazia outra coisa senão perseguir Lin. E como Lin não dava mostras de se sentir perseguido, Katazan passou a se imaginar prisioneiro, em vez de vice-versa. Afinal Katazan era ou não era o superior? Dentro do sistema vigente, Katazan era autoridade. Mas parecia que Lin inventara outro sistema. Um sistema metabólico que cá para nós não valia nada, que só contava dentro da cabeça dele, que Katazan não compreendia e nem tinha nada que parar para pensar e se preocupar. Mas Katazan sabia que Lin inventara outro sistema. E naquele sistema idiota talvez Lin pensasse que era superior a Katazan. Talvez nem existisse Katazan naquele sistema absurdo. E Katazan não aguentava mais aquilo. E matou Lin.”
