os livros de chico no cinema
Budapeste
BUDAPESTE
2009. Direção: Walter Carvalho
Tão desafiadora quanto as adaptações anteriores de Estorvo e Benjamim, a transposição de Budapeste ao cinema teve que lidar com um texto que frequentemente recorria às próprias palavras para se estruturar. O romance gira em torno de palavras, escritas ou oralizadas em dois idiomas, com requintes de intertextualidade difíceis de transformar em imagens.
Sempre que possível, o filme valoriza o texto escrito, seja em livros, letreiros, rabiscos, sopa de letrinhas, no corpo das mulheres. Vários personagens falam húngaro, inclusive Leonardo Medeiros, que decorou suas falas para o papel principal. A afirmação de que “o húngaro é a única língua que o diabo respeita” foi transferida da boca de José Costa, no livro, para sua amante húngara Kriska (Gabriella Hámori) no filme.
Walter Carvalho encarou o desafio apostando no requinte visual de seu estilo fotográfico (herdado pelo filho Lula Carvalho, que fez a fotografia) e no humor que exala do livro. Temos aqui mais um personagem patético, como eram Benjamim e o sem nome de Estorvo. José Costa é um ghost writer com a vida dividida entre mulheres e empregos do Rio e da capital húngara.
Apesar de seguir com fidelidade os passos do romance, o filme se esclarece melhor para quem leu o livro e pode preencher as lacunas e elipses da história. O roteiro de Rita Buzzar eliminou muitos elementos do entrecho, entre eles a personagem Vanessa, irmã gêmea da mulher de José, Vanda, e todas as suposições de José, conjugadas no futuro do pretérito.
Em compensação, Walter acrescentou a estátua do Escritor Desconhecido, existente num parque de Budapeste, a que os húngaros se referem como “Anônimo” e personifica um dos mitos fundadores do país, o escritor da Gesta Hungarorum. O achado dialoga perfeitamente com o tema do livro e do filme, qual seja a glória obscura de quem escreve anonimamente para outros usufruírem dos seus méritos.
Ao contrário de Chico, que só pisou na Hungria pela primeira vez depois de lançado o livro, Walter Carvalho filmou em Budapeste, tirando partido da paisagem real, do rio Danúbio e das ruas da cidade. Numa decisão quase extravagante, mandou construir uma estátua gigantesca de Lenin, que é rebocada aos pedaços numa balsa pelas águas do Danúbio. Era uma homenagem a Theo Angelopoulos, que fez algo parecido em Um Olhar a Cada Dia.
A intertextualidade do original de Chico é explorada em vários níveis. A figura do Escritor Desconhecido ganha vida num sonho de José Costa e o confronta como seu duplo. Os livros O Ginógrafo e O Naufrágio, ambos escritos por ghost writers, aparecem no filme com as capas idênticas à do próprio Budapeste em sua primeira edição da Companhia das Letras. Chico Buarque faz uma ponta pedindo autógrafo de José Costa num exemplar de Budapeste, assim concluindo o círculo entre personagem, autor e escrita terceirizada. Paulo José, que deu corpo a Benjamim no filme de Monique Gardenberg, reaparece como um advogado. Note-se, ainda, a presença da canção Feijoada Completa, de Chico, cantada em português e húngaro numa das cenas em que José retorna ao Brasil.
O trânsito entre livro e filme se conclui com a imagem final de uma câmera de cinema postada diante de José e Kriska antes que a voz de Walter Carvalho ordene: “Corta!”.
