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os livros de chico no cinema
Benjamim

BENJAMIM

2003. Direção: Monique Gardenberg

 

A adaptação escrita por Monique Gardenberg, Jorge Furtado e Glênio Póvoas, acompanhada de perto por Chico Buarque, combina fidelidades e infidelidades em relação ao livro. A mais importante delas talvez seja a troca do eixo narrativo principal. Enquanto no livro o foco está mais nas lembranças e devaneios de Benjamim, no filme prevalece a história de Ariela, interpretada com surpreendente desembaraço pela estreante Cleo Pires.   

 

“É preciso desrespeitar a obra  literária’, dizia Monique à época da estreia do filme. Daí que episódios sejam suprimidos – como as histórias pregressas de Alyandro Sgaratti, de Ariela Masé e da Pedra – e outros sejam ampliados, como a cerimônia de casamento de Ariela e Jeovan, que não aparece no livro.

 

A ordem dos núcleos narrativos também se altera consideravelmente de maneira a tornar um pouco mais clara a evolução dos personagens dentro da trama, que se alterna entre os anos 1960 e o final da década de 1980. O relacionamento de Ariela e Jeovan, atravessado pela história do estupro de Ariela, é um núcleo antecipado no início e na metade do filme, ao passo que no livro só se apresenta perto do final.

 

Em sua dissertação de mestrado sobre essa adaptação, Mariana Mendes Arruda explora alterações importantes entre uma e outra obra. Uma delas diz respeito à “motivação forjada” que conduz o comportamento de Ariela, inexistente no livro: “A  menina vinda do interior se vinga de homens desconhecidos na primeira narrativa. No filme, entretanto, ela leva ao pelotão de fuzilamento os personagens Zorza, Alyandro (em tentativa) e o próprio Benjamim. O roteiro  de Monique Gardenberg forja uma relação  de vingança da protagonista com todos os homens que se envolvem com ela – motivação que justifica seu caráter e o desfecho do filme: o motivo pelo qual Benjamim Zambraia foi  fuzilado”.

 

Uma alteração bem pontual se dá em relação ao enunciado sobre a iconografia de santos e personagens nobres, que estão sempre de boca fechada, enquanto os personagens de bocas abertas são geralmente loucos, mendigos, bacantes, músicos, etc. Se no livro esse é um pensamento de Benjamim, no filme surge como uma fala de Castana Beatriz.

 

Outra mudança significativa ocorre quando Ariela relata o estupro ao marido inválido. No livro, ela se emociona com a lágrima de Jeovan e, para estender aquele momento, inventa outras sevícias que não aconteceram. No filme, ela se assusta com o pedido de Jeovan – “e depois? E depois?” – e segue em frente para satisfazer a curiosidade mórbida do marido.  

 

Uma diferença fundamental entre as duas épocas em que se passa a história é o estilo da fotografia, como relatou a diretora: “Para dar conta de uma história de amor em dois tempos, separados por  longos 30 anos, eu e o diretor de fotografia Marcelo Durst escolhemos uma  gramática bem definida: as cenas do passado foram filmadas em linguagem clássica, com película positiva Ektachrome revelada como negativo, daí resultando cores explosivas e uma certa granulação que evocam a nostalgia de um tempo de glamour e inocência. O presente é mais frio, nervoso e  instável, com muitos planos-sequência e câmera na mão.”

 

Na tela do cinema, Benjamim acaba por realizar o que Chico sugere no início do livro em relação à “câmera invisível” que Benjamin criou para si e de que tentava a custo se desvencilhar depois de maduro. Para ele, era uma forma de portar-se galante e seguro diante do mundo. No filme, essa câmera se torna real e expõe o patético do Benjamim sessentão, que a performance de Paulo José encarna com muita graça. Efeito próprio da linguagem audiovisual, a câmera real do filme torna objetivo muito do que no livro pode ser meramente subjetivo.

 

O filme explicita uma série de referências à publicidade e ao cinema, universos que perpassam o romance. Há citações da Nouvelle Vague nos trechos dos anos 1960, amparadas no fato de que Castana Beatriz esteve em Paris, com destaque para Um Homem... Uma Mulher, de Claude Lelouch. Alude-se, ainda, ao tropicalista Brasil Ano 2000, de Walter Lima Jr. (na fachada de um cinema), à Sinfonia de Mahler tocada em Morte em Veneza, de Visconti, e ao musical Cantando na Chuva em alguns movimentos de corpo de Benjamim.

 

Também em relação à música, Benjamim filme se vale da intimidade de Monique Gardenberg com o mundo musical. As referências fictícias do romance tornam-se “verídicas” nas figuras de Wando e Zeca Pagodinho, na inserção de Alegria e no cover de Elvis Presley vivido por Benjamim jovem (Danton Mello). Na trilha sonora comparecem, ainda, excertos de Chet Baker, The Platters, Jacques Brel, Eumir Deodato, Gerry  Mulligan e Astor Piazzolla.   

Vale acrescentar que, à margem do filme, um videoclipe também dirigido por Monique para a canção Alegria, de Arnaldo Antunes, tem Chico no elenco e cita O Desprezo, de Godard. Veja: 

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BENJAMIM ZAMBRAIA E O AUTOPANÓPTICO

2020. Direção: Felipe Cataldo

 

O personagem do primeiro longa-metragem de Felipe Cataldo é o mesmo do romance Benjamim, de Chico Buarque, de onde foram tiradas várias citações textuais. Mas esse Benjamim (vivido pelo próprio diretor) não está atrás de nenhum rosto feminino, nem se meteu com vestígios da ditadura militar. Ao contrário, é um jovem beberrão que vagueia pela cidade e é tratado ora com mimos, ora com porrada pelos pais (Helena Ignez e Otávio Terceiro).

 

Como no livro de Chico, o rapaz é obcecado por uma grande pedra, uma montanha. Além disso, vive com a sensação de que está sendo filmado, ao passo que o narrador diagnostica, buarqueanamente: “as imagens ricocheteando no bojo do seu crânio”. Aqui e ali, uma câmera flutua, autônoma, em torno dele, até fenecer em chamas junto a um balde de pipocas.

 

Afora essas referências, acompanhadas de trechos do livro oralizados em off, não há qualquer outra menção à trama ou a personagens do romance. O bar-restaurante Vasconcelos do livro é renomeado como Roda-Viva.

 

De tanto avançar na invenção, Felipe nos leva de volta às fulgurações mais radicais do cinema marginal. É difícil fazer associações narrativas ou mesmo conceituais no jorro de imagens e sons. Seria Benjamim uma figuração do homem contemporâneo, que se sente observado por uma câmera panóptica que filma em todas a direções e está em todos os lugares?

 

As deambulações de Benjamim se alternam com cenas performáticas em diversas áreas do Rio de Janeiro, cidade que se impõe como um personagem frontal. O humor dá as caras em momentos específicos – como nos encontros de Benjamim com os pais ou nas pessoas que aparecem fumando de tudo, inclusive latinhas de cerveja e fitas VHS. A certa altura, como numa paráfrase visual de Julio Bressane, um gato brinca com um benjamin (adaptador de tomadas).

 

Os poucos diálogos são completamente dessincronizados (lembrando experiências de Sylvio Lanna), cenas correm ao reverso, a edição inviabiliza qualquer ilusão de continuidade. O trabalho de Felipe Cataldo se distingue pelo uso de película, que ele manipula ostensivamente em laboratório para criar texturas, “sujeiras” e “ferimentos” na imagem e no som. Estorvos, por assim dizer.

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