o cinema nos livros de chico
O Irmão Alemão
2014
Depois que soube da existência de um meio irmão na Alemanha, Chico começou a criar uma história imaginária em torno dessa procura. Seu quinto romance é uma mescla quase indiscernível de memórias e elaboração ficcional. A relação com a biblioteca do pai, Sérgio Buarque de Hollanda, os roubos de carro e as amizades da adolescência, o golpe de 1964 e os festivais da canção da década de 1960 fazem o pano de fundo para as suposições de Chico a respeito do irmão alemão.
Assim como só conheceu Budapeste depois de escrever e lançar o livro homônimo, ele só encontrou de fato os registros visuais de Sergio Günther à época do lançamento de O Irmão Alemão. O cineasta Miguel Faria Jr. o acompanhou na estada em Berlim como parte do documentário Chico, Artista Brasileiro. Sua surpresa ao descobrir que Sergio era também um cantor está registrada nesse filme.
De resto, O Irmão Alemão conserva estilo semelhante ao dos livros anteriores, com descrições incessantes de fatos, gestos e ações, reais ou imaginárias, sempre dotadas de um alto grau de visualidade. É notável a quantidade de trechos narrados no futuro do pretérito, expressando conjecturas do narrador. O crítico Alcides Villaça apontou, em O Estado de S.Paulo: “Diria que Chico ironiza, sem descartar, recursos da Nouvelle Vague, dos filmes de Antonioni e de Godard, da força desafiadora dos sonhos, das sombras e dos simulacros que pontuam e mesclam gêneros artísticos da modernidade”.
Destaco a seguir algumas passagens que citam o cinema explicitamente:
Aqui Chico se refere à técnica pré-cinematográfica do taumatrópio ao comparar seu alterego Ciccio com o irmão Mimmio: “Se cunhássemos nossas cabeças eu e meu irmão, cada qual numa face de uma moeda, e se girássemos essa moeda com um peteleco forte, poderíamos vislumbrar a cabeça do meu pai e a cabeça da minha mãe quase simultaneamente. Já com a moeda em repouso tornamos a ser duas cabeças tão dessemelhantes que ninguém nos imagina irmãos.”
Ciccio tenta seduzir as muitas ex-namoradas de Mimmio: “Sei que elas me ouviam embevecidas menos pela poesia que pelo timbre da minha voz, característica paterna em que, aí sim, meu irmão e eu somos gêmeos. E que seria meu trunfo no escuro do cinema, onde eu tinha duas horas para comovê-las, diverti-las, impressioná-las com palavras que meu irmão desconhece, fosse num filme da nouvelle vague ou nas comédias românticas da Metro. No fim da sessão as luzes da sala se acendiam gradualmente, o que sempre me dava a esperança de que elas se acostumassem aos poucos com a minha pele, meus esgares, que saíssem do cinema ainda impregnadas da minha voz profunda e não estranhassem o suor da minha mão na sua. Foi do Cine Majestic que levei para casa minha primeira ex do meu irmão, o que me dava o gosto de o estar chifrando um pouco.”
Com Maria Helena, as afinidades eram maiores: “Com ela dava para ver Godard, Antonioni e Bergman sem ter de explicar os silêncios”. Mas havia também os contratempos: “Peguei ojeriza a bolsa de mulher no dia em que Maria Helena largou a sua no meu colo e me pediu um drops de hortelã, com os olhos vidrados na tela. Mas o filme era escuro, e pelo tato eu encontrava canetas, chaves, estojo, batom, moedas, tudo menos o tal do drops. (...) Quando a tela se iluminou com um close da Monica Vitti, li por fim a coleção de torpedos no verso de pules de jogo de bicho”.
Com outra garota, “uma caipira até interessante”: “Fomos ver O Anjo Exterminador, mas ela estava tímida demais, assistiu ao filme encolhida na cadeira e não achou graça nas minhas observações.”
Sobre o irmão alemão: “Prefiro continuar a ver meu irmão em sonhos, com sua cara ainda sem acabamento. Penso que vê-lo assim, à queima-roupa, com excessiva nitidez, será como ver escancarada na tela de cinema a personagem de um romance que eu vinha adivinhando fio a fio, no tempo da leitura.”

Sergio Günther, o irmão alemão
Ciccio tenta um emprego na Aliança Francesa: “Mas D. Nicole não pode mais me atender, está reunida com o ex-marido, que na opinião da recepcionista é a cara do marido da Elizabeth Taylor. Se é verdade que ele bate nela, não o Richard Burton mas o ex-marido, isso é da conta da D. Nicole”.
O filme O Anjo Azul, de Josef Von Sternberg, é citação recorrente em obras de Chico Buarque, provavelmente em função da admiração de seu pai pela obra estrelada por Marlene Dietrich. Quando na Alemanha como correspondente dos Diários Associados, em fins da década de 1920, Sérgio Buarque de Holanda traduziu os diálogos do filme para a legendagem em português. É de supor que o citasse com frequência. Em O Irmão Alemão, Chico narra um jantar em família, quando o pai bebe uma garrafa inteira de vinho Liebfraumilch, “recita todos os sonetos de Rilke, e canta a valsa do filme O Anjo Azul”.
Mais adiante, Ciccio ouve recordações alemães do pianista Heinz Bogart a respeito de Anne Ernst, a mãe do irmão alemão: “Ainda posso ouvir suas risadas a relembrar como se encantou por ele na cafeteria da UFA, a companhia cinematográfica alemã, mas o senhor seu pai nunca lhe relatou essa passagem? Ao ouvir da garçonete o nome do cavalheiro, a srta. Erns entendeu que se tratava de Friedrich Holländer, autor da música do filme O Anjo Azul, então rodado naquele estúdio. Já ele a cortejava à distância confundindo-a com a dançarina austríaca Lily Ernst, que talvez contracenasse com Marlene Dietrich no cabaré do mesmo filme. E de tanto se entreolharem, já viviam, no dizer dela, uma paixão irremediável quando foram apresentados, ela uma datilógrafa de plantão a serviço dos roteiristas da UFA, ele um correspondente mal pago de jornal sul-americano que, por um punhado extra de marcos, redigia em sua língua legendas de filmes alemães.”
O filme de von Sternberg ainda seria citado quando Ciccio tenta encontrar Anne Ernst em Berlim: “e percorrendo uma enfiada de cabines de telefones públicos fora de serviço ele acabaria por chegar ao endereço anotado, onde uma vitrola eventualmente tocaria a valsa do Anjo Azul: Sou da cabeça aos pés / Feita para o amor...”
Vale lembrar que O Anjo Azul é também mencionado na letra marcadamente cinematográfica da canção A História de Lily Braun, de Edu Lobo e Chico.