A Música de Chico no Cinema
Lara, Zuzu e outras mulheres - 2002 a 2006
LARA
2002. Direção: Ana Maria Magalhães
A canção Fora de Hora, original para o filme, é a única parceria de Chico Buarque e Dori Caymmi, que compôs a trilha instrumental. Aparece na abertura e no encerramento dessa cinebiografia da atriz Odete Lara, conferindo um certo glamour romântico e aludindo à “dor de ser mulher”. Na voz de Nana Caymmi, o eu lírico feminino de Chico fica ainda mais lírico.
CARNAGE (no Brasil, “Estranhas Ligações”)
2002. Direção: Delphine Gleize (França)
O filme multiplot da francesa Delphine Gleize movimenta cinco grupos de personagens fugazmente interligados pelo fato de lidarem com partes do corpo de um touro morto numa arena espanhola. Eles e elas estão na França, na Bélgica e na Espanha. Aparecem em vinhetas caracterizadas por um misto de bizarrice, morbidez e violência, com ecos distantes de Luís Buñuel. Uma delas é Betty, grávida de quíntuplos, interpretada pela cantora e atriz portuguesa Lio, radicada na Bélgica. O marido de Betty é um cientista que recebe os olhos do touro.
A diretora decidiu associar à atriz portuguesa (embora a origem da personagem nunca seja mencionada no filme) uma canção em português. Escolheu Valsinha, de Vinicius de Moraes e Chico Buarque. A escolha soa puramente afetiva, uma vez que tampouco há qualquer relação entre a letra e a situação da personagem.
Delphine conhecia Valsinha na versão do guitarrista português Antonio Chainho. No filme, ela lança mão de três gravações diferentes, sempre relacionadas ao personagem de Lio: com o próprio Chico, com a voz de Celso Fonseca acompanhado pela guitarra portuguesa de Chainho, e com Ney Matogrosso.
CABRA-CEGA
2004. Direção: Toni Venturi
Três canções de Chico Buarque comparecem em Cabra-Cega, todas em gravações especiais para o filme na voz de Fernanda Porto. No drama, ambientado em 1971, no auge da ditadura, Leonardo Vieira interpreta Roberto/Thiago, guerrilheiro ferido que se esconde no apartamento de um colaborador. Endurecido pela luta e eletrizado pela paranoia, ele custa a se deixar tocar pela ternura da doce Rosa (Débora Duboc), escalada pela organização para cuidar dele e servir de ponte com o mundo exterior. Toni Venturi e o roteirista Di Moretti inventariam os temores, a solidão e o possível lugar do afeto na vida em situação de clandestinidade.
Rosa dos Ventos é a trilha sonora da primeira conexão amorosa entre os dois. As primeiras estrofes da canção, com suas proparoxítonas soturnas, sublinha o contraste entre a sofreguidão com que Thiago e Rosa se entregam ao sexo e o medo que os circunda. O verso “e na gente deu o hábito de caminhar pelas trevas” coincide com o gesto de Rosa de colocar uma venda nos olhos, como no jogo de cabra-cega.
Quando Thiago sai pela primeira vez do esconderijo, à beira de um surto, para conferir a batida policial que acabava de matar alguns de seus companheiros, a voz de Fernanda Porto injeta fúria na versão de Construção. A letra parece ecoar nos arranha-céus e nas estátuas de São Paulo. Os mortos no chão da praça fazem um paralelo com a queda fatal do operário na canção.
Por fim, Roda Viva fecha o círculo de derrotas e resistência dos guerrilheiros na sequência final. Junto a Thiago e Rosa, o amigo Pedro, dono do apartamento, sai de sua posição de retaguarda para entrar de peito aberto no bom combate. É um epílogo poético sobre a volta por cima dos fracassos e a permanência do espírito de luta. “A gente vai contra a corrente até não poder resistir”.
Roda Viva também aparece na cena em que Rosa canta e toca violão em tentativa de animar Thiago (veja em Chico diegético).
A MÁQUINA
2006. Direção: João Falcão
Nessa fábula nordestina sobre amor louco e viagem no tempo, a canção Porque era Ela, Porque era Eu é uma das várias, de diversos autores, que integram a trilha sonora. Na voz do próprio Chico, ela é o único elemento a sonorizar uma das cenas culminantes, quando Antonio (Gustavo Falcão) é violentamente separado de Karina (Mariana Ximenes) e recolhido ao sanatório.
Segundo Wagner Homem, em Histórias de Canções – Chico Buarque, esta foi a primeira canção composta por Chico após ter escrito o romance Budapeste. Feita especialmente para A Máquina, é uma variação da frase "Parce qu'était lui, parce qu'était moi", utilizada pelo filósofo Michel de Montaigne para explicar a amizade entre ele e o escritor Étienne de La Boétie. Chico diz, no DVD Cinema, que é a maneira "mais simples e mais definitiva de explicar o amor entre duas pessoas".
ZUZU ANGEL
2006. Direção: Sérgio Rezende
A participação de Chico Buarque nesse filme vai bem além da trilha musical. Chico era amigo próximo da estilista Zuzu Angel, que teve seu filho Stuart Angel morto pela ditadura em 1971. Em entrevista de 1985 para o Centro Cultural São Paulo, Chico contou:
“Eu conheci muito a Zuzu. Ela foi uma mulher que durante anos depois da morte do filho não fez outra coisa senão se dedicar a denunciar os assassinos, a reivindicar o direito de saber onde é que estava o corpo dele. Ela ia de porta em porta mesmo. E lá em casa ela ia com muita frequência, como em outras casas também. Ela sabia, inclusive, das ameaças que pairavam sobre ela e dizia que tinha certeza de que se alguma coisa acontecesse com ela a culpa seria dos mesmos assassinos do filho, que ela citava nominalmente. Na manhã do dia em que aconteceu o acidente com ela, ela tinha estado lá em casa e deixado as camisetas que fazia, gravadas com aqueles anjinhos que eram a marca dela, para as minhas três filhas. Aquilo me chocou muito. Ela passava em casa quase semanalmente, mostrando os relatórios todos do trabalho que estava fazendo aqui e nos Estados Unidos.”
No filme de Sérgio Rezende, pouco antes de sua morte, Zuzu (Patrícia Pillar) recebe uma fita cassete enviada por Chico com a gravação de Apesar de Você. Pouco depois, é vista na estrada, ouvindo a canção no rádio do carro. Inicia-se uma perseguição que vai culminar com a queda do automóvel numa ribanceira e a morte de Zuzu. Um dos meganhas que a perseguiam desce até o carro para retirar os documentos que ela transportava e tenta em vão desligar o rádio. A música não se detém, numa metáfora da resistência à ditadura e da perenidade da obra de Chico.
A cena é seguida dos créditos finais ao som de Angélica, lamento composto em 1977 com música de Miltinho e dedicado a Zuzu. Na letra, cada estrofe começa com a pergunta “Quem é essa mulher?” e conclui com a resposta da mãe sobre a dor da perda do filho.
O MAIOR AMOR DO MUNDO
2006. Direção: Cacá Diegues
O melodrama, atravessado pela violência dos favela-movie da época, trata da procura de um renomado astrofísico pela sua mãe biológica na Baixada Fluminense depois que é diagnosticado com uma doença incurável. Segundo Diegues, Chico acompanhou a produção desde o início, recebendo cenas em DVDs para aproximá-lo mais do filme.
A suavíssima canção Sempre, como de praxe em encomendas de Chico para o cinema, não faz alusão direta ao enredo. Fala de uma dedicação amorosa que transcende os limites do tempo. Pode ser o amor por uma amante, como pode ser de um filho pela mãe que já se foi. Seria esse o maior amor do mundo, aquele que dura para sempre?
Com arranjos de Guto Graça Mello, o tema instrumental pontua o filme em vários momentos antes que a voz de Chico compareça para a versão definitiva na última e lírica cena em que Antonio (José Wilker) morre nos braços de sua jovem mãe Flora (Anna Sophia Folch).