A Música de Chico no Cinema
de dona flor aos assassinos – 1976 a 1979
DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS
1976. Direção: Bruno Barreto
Convidado por Bruno Barreto a compor uma canção para o filme, Chico escreveu três versões diferentes da letra de O que Será, que ele classificou como um “cubaião” (mistura de música cubana com baião). Os versos falam do impulso irrefreável da paixão, que se sente mas não se sabe definir.
As três versões são interpretadas por Simone na trilha sonora, o que associa diretamente as inquietações da letra à personagem de Sônia Braga. A primeira, Abertura, toca nos créditos iniciais, após a morte súbita de Vadinho no Pelourinho. A segunda, subtitulada À Flor da Pele, sublinha a transição de Flor do luto para a disponibilidade sensual. A terceira, com o subtítulo À Flor da Terra, infunde um tom mais luminoso à saída do trio da igreja em meio ao povo e aos créditos finais.
Chico assim explicou as três versões: “Quando não é um musical, é legal ter uma música que se repita. Na trilha sonora, é quase sempre isso, você repete o mesmo tema com variações orquestrais. Nesse caso, fazendo a mesma melodia, a mesma música, a mesma harmonia para três situações diferentes. E aí o clima, a orquestração era diferente para cada situação e a letra também, evidentemente. Uma letra foi em cima da receita do livro de Jorge Amado, outra era a sensualidade da personagem principal aflorando, e a terceira, um hino à liberdade, que era o final do filme".
O tema musical também foi utilizado como música incidental nos arranjos de Francis Hime. O fato de não ter escolhido um compositor baiano para criar a trilha de um filme baseado em Jorge Amado rendeu a Bruno Barreto algumas críticas.
A FERA CARIOCA (Carioca Tigre)
1976. Direção: Giuliano Carnimeo (Itália/Brasil)
A obscura comédia de ação italiana A Fera Carioca (Carioca Tigre), ambientada no Brasil e rodada em parte no Rio de Janeiro, tem o Samba de Orly nos créditos de abertura e encerramento, além de uma pequena inserção a meio caminho. Incluo o filme aqui a título de mera curiosidade, uma vez que se ouve apenas a melodia de Toquinho em versão instrumental, sem a letra de Chico Buarque e Vinicius de Moraes.
A coprodução ítalo-brasileira coloca em cena dois grupos em disputa por encontrar uma pistola de ouro cravejada de diamantes, deixada como herança para seu filho pelo ex-pistoleiro de um chefão da máfia sul-americana. O “Tigre” do título, mafioso cômico e ás da sinuca, é interpretado por Aldo Maccione. Os estereótipos latino-americanos incluem piranhas, futebol, um guerrilheiro cubano, um passista de escola de samba (Grande Otelo em participação especial) e um macumbeiro (Milton Gonçalves). Os atores brasileiros foram dublados em italiano. Luiz Antonio Piá assina como colaborador do roteiro e assistente de direção.
Na cena de abertura, os olhos azuis de um dos protagonistas (o ator italiano Antonio Cantafora, creditado como Michael Coby) contemplam deslumbrados a paisagem do Rio de Janeiro. No crédito de “leitmotiv” musical, o sobrenome de Chico está grafado “Barque de Hollanda” (sic).
SE SEGURA, MALANDRO
1977. Direção: Hugo Carvana
Antes de retomar o personagem Secundino, de Vai Trabalhar, Vagabundo, em 1991, Hugo Carvana criou uma variação em Se Segura, Malandro. Ele vive um radialista do subúrbio carioca que mobiliza sua única repórter, Caloi Volante (Denise Bandeira), para cobrir diversos acontecimentos pela cidade. Segundo conta Wagner Homem no seu livro Chico Buarque: Histórias de Canções, Carvana pediu “uma música para uma festa que de certa forma prenunciava a anistia política e a volta ao estado de direito, bandeiras de luta dos movimentos sociais organizados. Como se esperavam para a festa muitas bocas — exilados e, sobretudo, o povo marginalizado —, era necessário "botar água no feijão".
Feijoada Completa entra em cena duas vezes no filme. A primeira, na volta para casa, em trem lotado, de Candinho (Hélber Rangel), economista rico e instruído que aceita trabalhar como operário e morar numa favela para merecer a gerência das empresas do pai. A segunda, durante os festejos de inauguração da Associação de Moradores da Favela de Maria Angu. Em ambas as ocasiões, o samba abdica de sua conotação política para dar colorido a motivos populares e sequências de grande movimentação.
A NOIVA DA CIDADE
1978. Direção: Alex Viany
Chico foi convidado a fazer as letras para as músicas de Francis Hime e também para contracenar com Dina Sfat nos papéis principais do filme. Dina ficou grávida e Chico desistiu de atuar às véspéras das filmagens, sendo então substituídos por Jorge Gomes e Elke Maravilha.
O filme foi realizado “para Humberto Mauro”, então com 81 anos, sobre argumento imaginado por ele muito tempo antes. Consta que Chico fez discretas contribuições na elaboração do roteiro sobre Daniela, uma famosa estrela de cinema que retorna à sua pequena cidade natal de Catavento, em Minas Gerais, para reatar com a simplicidade do mundo rural. Inicia um namoro com Beto, um compositor popular local, mas toda a cidade se apaixona por ela, e os políticos querem usá-la para as causas que defendem.
Chico e Francis compuseram quatro canções especialmente para o filme. O tema-título, cuja letra sintetiza o argumento, e a toada ornitológica Passaredo são interpretadas pelo personagem Beto, na voz de Jorge Gomes. Antes mesmo de o filme estrear, Passaredo já se fazia ouvir na trilha musical da série infantil de TV O Sítio do Picapau Amarelo (1977). O dueto Desembolada é cantado por Beto e Lindalva, ex-namorada de Beto, papel de Betina Viany. Por fim, Quadrilha é repartida por boa parte do elenco numa sequência de festa junina.
REPÚBLICA DOS ASSASSINOS
1979. Direção: Miguel Faria Jr.
Baseado em romance policial de Aguinaldo Silva, o filme dramatiza questões ligadas ao Esquadrão da Morte, que combatia o crime com outros crimes nos anos 1970. O personagem central é o policial-bandido Mateus Romeiro (Tarcísio Meira), um dos “homens de aço” do Esquadrão. Mateus sofrerá uma emboscada do travesti Eloína (Anselmo Vasconcelos), que nutre por ele um misto de amor e ódio desde que ele matou seu companheiro Carlinhos (Tonico Pereira).
Chico compôs duas músicas de letras contundentes para o filme: Não Sonho Mais e Sob Medida. A embolada Não Sonho Mais descreve um “sonho medonho” de Eloína, em que os marginais assassinados por Mateus se vingavam do seu algoz. A ambiguidade de sentimentos é exposta na última cena do filme e nos últimos versos da composição, quando Eloína pede que Mateus a ame e logo em seguida o mata.
A canção aparece em três versões distintas no filme: em arranjo instrumental na abertura; de modo diegético na cena em que Eloína a interpreta fazendo playback da voz de Elba Ramalho (que faz uma ponta em outro momento do filme); e na sequência final, em dueto extradiegético de Chico e Elba.
Já Sob Medida é interpretada, também diegeticamente, por Sandra Bréa, no papel de uma atriz que largou o cinema para ser a infeliz amante de Mateus antes de se converter à religião evangélica. Esta é mais uma clássica canção de Chico que assume o eu feminino, uma mulher que se iguala ao amante vilão: “Sou perfeita porque / Igualzinha a você / Eu não presto”.