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Introdução
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Este site-livro nasce, antes de mais nada, da minha profunda admiração pelo artista e pelo cidadão Chico Buarque de Holanda. Alguém que Antonio Candido tão bem definiu como “um homem realmente exemplar, cuja integridade pode servir de modelo e cuja variedade de aptidões chega a causar espanto”.

Como o tempo não deixa as palavras descansarem em paz, pode ser que Chico Buarque não seja mais "a única unanimidade nacional", como Millôr Fernandes o carimbou nos anos 1960. Mas não é preciso enfileirar adjetivos para ver nele o maior artista criador brasileiro vivo no ano de 2026 em que finalizo este trabalho. A qualidade insuperável de sua obra musical, a originalidade de sua literatura e a vivacidade de suas criações para o teatro o colocam num patamar único da cultura brasileira.

Desde cedo em sua carreira, Chico combinou o perfil de um ídolo popular com a discrição de um sujeito simples e uma erudição despojada de qualquer vaidade. A chicolatria formada em torno dele nunca o abalou para além dos sorrisos encabulados em tom de suave ironia. Embora nunca tenha convivido com ele, percebo essas características em sua pessoa pública e nas referências de quem o conhece bem.

Mas este site-livro nasce também de uma lacuna evidente no trato de sua obra. Chico já foi estudado, analisado, dissecado por todos os ângulos de sua música e por muitas facetas de seus livros e suas peças. Tem sido constantemente festejado por suas posições políticas progressistas e a integridade de seu caráter. No entanto, de suas contribuições para o cinema e das intercessões entre sua obra e a arte cinematográfica, tudo o que temos são abordagens dispersas, em geral superficiais. São reportagens jornalísticas, entrevistas de televisão, pequenos ensaios, etc, que, independentemente da qualidade, são incapazes de fornecer uma visão mais abrangente da fértil relação de Chico com o cinema.

Longe de mim comparar a importância do audiovisual com os demais segmentos da criação buarqueana. Quero apenas evidenciar que os filmes não são nada desprezíveis quando se pensa nesse conjunto de invenções e observações sobre a vida brasileira que constitui o planeta Chico Buarque.

O que logo salta aos olhos é a presença da música de Chico nas trilhas sonoras de filmes brasileiros e estrangeiros. Numa conta sempre sujeita a omissões, localizei 60 títulos, entre filmes de ficção e documentários, longas e curtas-metragens, com canções de Chico em suas trilhas musicais. A primeira foi há exatos 60 anos antes da publicação deste site-livro, quando ele compôs a trilha para o filme O Anjo Assassino (1966). Essa conta inclui também sete filmes inspirados ou motivados diretamente por músicas de sua autoria. Sem contar as vezes em que personagens apenas cantarolam ou mesmo assoviam canções suas casualmente, como parte das cenas (veja em Chico diegético)

Numa estrutura de espelhamentos sempre que possível, busquei também as diversas acepções em que o cinema, seus elementos e sua mítica comparecem nas letras de Chico, com especial predileção pelas atrizes.

Dos romances e novela do autor, cinco adaptações já foram feitas para as telas e ganham aqui uma breve análise de como chegaram até lá. Da mesma forma, vasculhei seus livros à procura das referências explícitas ao cinema, bem como da incidência de procedimentos análogos à linguagem cinematográfica nos textos.

Também as seis transposições de seus trabalhos teatrais para o cinema foram objeto de um capítulo, que põe em destaque a junção do Chico dramaturgo com o Chico músico.

Talvez a parte mais pitoresca desse estudo seja a que se refere às performances de Chico como ator de cinema, até agora em número de sete. A falta de vocação do moço para a arte dramática tem sido agenciada com graça e nonchalance por cineastas de distintas tendências.

Por fim, volto a atenção para os documentários mais importantes sobre Chico e sua arte, que cobrem as diversas fases de sua carreira. Como contraponto a essa "vida de Chico no cinema", levanto alguns aspectos do cinema na sua vida pessoal, compreendendo a cinefilia e suas relações com o meio cinematográfico. 

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