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o cinema nos livros de chico
Leite Derramado

2009

As ruminações esburacadas do velho Eulálio Montenegro D’Assumpção no leito de um hospital vagabundo acerca de sua linhagem de homens nobres e mulheres fogosas tiveram como ponto de partida uma canção do próprio Chico, O Velho Francisco.

 

O romance foi transposto para o teatro em 2016, com direção de Roberto Alvim e interpretação da atriz Juliana Galdino. Mas bem dariam um filme sobre a decadência de mais um personagem patético de Chico Buarque. A adaptação ao cinema chegou a ser cogitada pelo produtor Flavio Ramos Tambellini. Seria dirigida por Lula Buarque de Hollanda e teria Antonio Fagundes e seu filho Bruno Fagundes nas duas idades do personagem central. O projeto, porém, não foi adiante, pelo menos até 2025.

 

Seria provavelmente um filme de idas e vindas no tempo, partindo sempre dos relatos do centenário Eulálio às enfermeiras, à filha e a quem mais passasse por ali, entre tomografias e trocas de fraldas. Um desafio para roteiristas, já que as memórias de Eulálio se confundem, se misturam e se atropelam.

 

Um bom exemplo da forma como Chico decupa seu texto de maneira cinematográfica está nesse trecho: “... reconheço na mulher o vestido rodado que meu pai comprou na véspera. É o próprio, não há dúvida, eu poderia identificá-lo até pelo avesso, meu pai o tinha alisado por fora e por dentro, frente e verso, assim como a mulher o alisa agora de cima a baixo. E é quando o marido de relance olha para ela, que sorri para o meu pai, que olha para ela, que olha o marido, que olha meu pai, que olha o pianista cego, e ela ajeita os cabelos. É decerto uma cena crucial, mas que naquela noite negligenciei, até porque papai não era dado a mulheres de cabelos castanhos.

 

As referências explícitas ao cinema são puramente casuais, ora ligadas a lembranças, ora a sonhos:

 

O velho se queixa da dificuldade para dormir no hospital e cita as cores dos seus sonhos: “Sirene na rua, telefone, passos, há sempre uma expectativa que me impede de cair no sono. É a mão que me sustém pelos raros cabelos. Até eu topar na porta de um pensamento oco, que me tragará para as profundezas, onde costumo sonhar em preto e branco.” (...)

“Eu por mim sonhava com você em todas as cores, mas meus sonhos são que nem cinema mudo, e os atores já morreram há tempos.

 

Os sonhos são associados ao cinema: “De Botafogo, o sonho cortou para a fazenda na raiz da serra”. (...)

“Então voltou a eletricidade e ouviu-se um longo oh, como a interrupção de um filme bom ou de um sonho coletivo.

 

Eulálio se recorda de um folioscópio que costumava folhear: “É um pequeno livro com uma sequência de fotos quase idênticas, que em folheada ligeira dão a ilusão de movimento, feito cinema. Retratam meu avô a caminhar em Londres, e em criança eu gostava de folhear as fotos de trás para diante, para fazer o velho dar marcha a ré.

 

As primeiras lembranças de Matilde, paixão de sua vida, vinham de missas na igreja da Candelária: “Na verdade nunca a pude observar direito, porque a menina não parava quieta, falava, rodava e se perdia entre as amigas, balançando os negros cabelos cacheados. Saía da igreja como quem saísse do cinema Pathé, onde na época exibiam fitas em série americanas.

 

A antiga sala de cinema da Cinelândia aparece de novo: “Matilde deu um breve assobio e perguntou se esses xavantes não seriam caçadores de cabeças, como os que tinha visto no cinema Pathé.”   

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