o cinema nos livros de chico
Fazenda Modelo
1974
A “novela pecuária”, primeira obra literária de Chico Buarque, era uma alegoria da ditadura civil-militar instalada no Brasil em 1964. Os bois e vacas da fazenda se submetiam ao autoritarismo de um dirigente, Juvenal, enquanto gozavam das benesses da modernização conservadora.
O texto é bastante experimental e, ao contrário de obras posteriores, não sugere semelhanças importantes com a linguagem cinematográfica. Há um capítulo dedicado à chegada da televisão colorida na fazenda, “Da tela mágica”. Ali surge de repente uma descrição de cenas que alude a procedimentos de cinema:
“Panorâmica do box, tape dos infantes. Take de Lubino e Latucha, os gemeozinhos realengos, nata da nata da Fazenda. Passei a mão na barriguinha de Anaía. Captei uma agitação lá dentro, pontapés quando Juvenal falou da ordenha mecânica, flash de Aurora mãe do ano ligada nos fios, brilho nos olhos de Anaía. Tomada de Abá campeão mundial erguendo a taça. Corte para Juvenal e cifras. Fantástica a produção de leite tipo A. Juvenal expondo o quanto aquilo representava em divisas para a Fazenda. Que com o superávit do leite exportado poderíamos tranquilamente importar manteigas, queijos e iogurte”.
Pouco adiante, ao comentar o hábito de Juvenal usar a palavra “quaisquer”, Abá cita um exemplo: “No cinema: eu gosto de quaisquer filmes coloridos.”
Em outro capítulo, a vaca Aurora, grávida do boi Abá, vai à cidade com frequência consultar o ginecologista: “O ônibus entra na cidade aos soluços, pára aos suspiros nas vitrines, nos filmes em cartaz, nos sinais de trânsito e na nova iluminação a mercúrio.”