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o cinema nos livros de chico
Essa Gente

2019

Esse que talvez seja o romance mais prosaico de Chico Buarque é, por outro lado, o mais experimental em matéria de construção narrativa. A história do escritor Manuel Duarte (quase um homófono de Chico Buarque), sua crise criativa e financeira, e suas relações tortuosas com duas ex-mulheres e uma nova paquera na favela, é contada com uma variedade de registros: narração onisciente, entradas de diário do personagem, monólogos, cartas, telefonemas, notícias de jornal, correspondência de condomínio, nota de despejo.

 

No cinema, isso corresponderia a uma narrativa não linear com o concurso de materiais de arquivo, offs e intervenções metalinguísticas, entre outros ingredientes. Ao leitor/espectador caberia montar e dar sentido narrativo a essa colagem.

 

Mesmo nesse cipoal de enunciações, muitos trechos parecem provir de um olhar cinematográfico ou clamar por uma transposição para as telas. Cito apenas um exemplo, de quando Manuel comparece a uma festa na mansão do ricaço Napoleão, novo amante de sua ex Rosane:

 

Ao atravessar o portal de entrada, Duarte teve a impressão que os salões estavam de cabeça para baixo, mas logo se deu conta que todas as luzes da casa emanavam de grandes círculos de vidro leitoso embutidos no piso. Rasgou elogios ao projeto luminotécnico da Rosane, que entretanto já não estava ao seu lado, onde baixou um garçom semelhante a um valete de copas. Duarte circulou pela festa bebendo champanhe e observando as garotas de minissaia que dançavam a música eletrônica, com as luzes de LED a branquear suas coxas. Da cintura para cima os dançarinos entravam numa zona de penumbra, e suas pulseiras personalizadas fosforeciam nos braços erguidos. Dançavam sozinhos ou em pares que não se olhavam, absortos nas suas sombras longilíneas a bailar no teto, se é que Duarte já não está misturando lembranças com sonhos.”  

 

Não são muitas nem muito importantes as referências diretas ao cinema no livro. A primeira surge durante um sonho em que Manuel Duarte se vê num avião em risco de queda: “Dizem que, na hora da morte, a vida repassa do início ao fim no cinema da nossa cabeça. Pois é ao que assisto, não como num filme, mas nas rasantes que o avião dá sobre o Rio de Janeiro. Ali estão a maternidade onde nasci, a casa dos meus pais, a igreja onde fui batizado, o colégio onde xinguei o padre, o campo de terra onde fiz um gol de calcanhar, a praia onde quase me afoguei, a rua onde apanhei na cara, os cinemas onde namorei, o prédio do curso pré-vestibular que larguei no meio (...) É como se, voando em círculos, o avião reproduzisse mais fielmente o trajeto da minha vida, me fazendo rever sempre as mesmas mulheres e os mesmos filmes, voltar aos mesmos endereços, gostar de repetir meus erros.” 

 

Manuel conta o que ouviu em conversa com seu amigo advogado Fúlvio: “Confia que meus romances ainda sejam adaptados para o cinema, estimando que, com um bom roteiro, incentivo fiscal e campanha publicitária, um filme pode render milhões. Ou talvez não, porque em tempos de austeridade como o nosso, quem poupa uns trocados para o lazer não vai gastar com cinema nacional. No entanto, sua banca de advocacia tem clientes poderosos, entre eles empresas multinacionais atuantes nas mais diversas áreas. Com uma boa conversa, poderiam inclusive se associar à produção desses filmes no exterior, o que me abriria uma nova janela de oportunidades, nas palavras dele. (...) Escreva pensando num filme de ação, diz ainda da janela do carro”.

 

Mais à frente, Fúlvio envia carta a Manuel: “Pois veja: calhou de um cliente amigo, por feliz coincidência, ser próximo de um produtor de Los Angeles que costuma investir em filmes de baixo orçamento, inclusive com roteiros adaptados de literatura latina. É uma pena que seus livros ainda não tenham sido publicados em inglês, mas se você providenciar a tradução de uma de suas obras, ou pelo menos uma sinopse, o produtor se compromete a examinar o material.” 

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