o cinema nos livros de chico
Budapeste
2003
Além das habituais decupagens de microações e mesclagem de cenas imaginárias com cenas reais, Budapeste só menciona o cinema como hábito corriqueiro dos personagens ou comparações entre a realidade e o faz de conta dos filmes.
O protagonista José Costa define sua inércia: “Eu tinha preguiça de jantar fora, para festas ninguém me convidava, teatro me deixava nervoso, filmes novos, esperava que saíssem em vídeo”.
Um casal de desajustados se junta a José nas ruas de Budapeste: “Saíram andando na minha frente, ela igual a uma criança pendurada no braço dele, e senti ternura vendo aquela cena, me lembrava um filme que esqueci.”
Mais adiante, José enfrenta o mesmo casal que o obriga a fazer roleta russa. Mesmo com a arma em punho, ele se vê acuado pela aproximação dos dois: “Foi quando comecei a duvidar de que aquele jogo fosse a valer porque, a não ser no cinema, ninguém avança de peito aberto contra uma arma carregada.”
Em casa com o filho pequeno, José vê televisão: “Começava um filme de radiopatrulha, com um policial branco e outro preto, mas eu não conseguia acompanhar o enredo, sempre que escutava barulho de carro ia à janela para ver se era a Vanda. E tome pneus cantando, freadas bruscas, cavalos de pau, tiros para o alto que deixavam o menino agitado, esfregando os olhos.”
O encantamento de Chico pelas atrizes de cinema é aqui transferido para o personagem do livro: “Ia ao cinema, mulheres extraordinárias se exibiam na tela, o filme era falado em língua conhecida, e eu não conseguia despregar os olhos das legendas.”
No lançamento do livro de um poeta húngaro, “Cinegrafistas filmavam um documentário com Kocsis Ferenc e a fila de autógrafos não progredia.”
De volta de uma estada na Hungria, durante uma caminhada pela orla da Zona Sul carioca, hábito compartilhado pelo autor e o personagem, José estranha o jeito das pessoas: “Às vezes eu as via como figurantes de um filme que caminhassem para lá e para cá, ou pedalassem na ciclovia a mando do diretor. E as patinadoras seriam profissionais, ganhariam cachê os moleques de rua, ao volante dos carros estariam dublês, fazendo barbaridades na avenida. Acho que eu tinha conservado da cidade uma lembrança fotográfica, e agora tudo o que se movia em cima dela me dava a impressão de um artifício.”
Kriska, a amante húngara de José Costa, havia adquirido o hábito de filmar seu dia a dia: “Quando não estava amamentando, ela gostava de mostrar suas filmagens, as imagens vacilantes, o zoom irrequieto; tinha a minha cena no aeroporto, tinha a criança no berçário, o parto era para eu ter filmado, mas na hora me senti mal e saí da sala.”

Kriska (Gabriella Hámori) em Budapeste, o filme