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o cinema nos livros de chico
Benjamim

1995

O romance de Chico compartilha com o cinema um tipo de construção baseado na sucessão ininterrupta de microações, assim como na constante oscilação entre os dois tempos (anos 1960 e 1980) e entre as perspectivas dos diversos personagens. Na leitura, sentimo-nos carregados por um fluxo de decupagem que percorre os corpos dos personagens, seus olhares e movimentos.

A aproximação com a Nouvelle Vague, frequentemente citada em análises dos seus romances, foi comentada por ele mesmo em entrevista à revista Bundas, no ano de 2000: “Eu nunca li nouveau roman. É claro que meu livro deve ter alguma coisa a ver com o cinema dos anos 60, da Nouvelle Vague. Os roteiristas da Nouvelle Vague eram autores do nouveau roman, e por isso acho que posso ter muita influência, sim, mas do cinema. O livro é totalmente cinematográfico.”

 

Afora isso, as referências ao cinema pontuam o filme a partir do hábito de Benjamim de rever filmes antigos e imaginar-se sendo filmado por uma câmera invisível.

 

Já na primeira página, ao se confrontar com o pelotão de fuzilamento, ele assiste “ao que já esperava: sua existência projetou-se do início ao fim, tal qual um filme, na venda dos olhos. Mais rápido que uma bala, o filme poderia projetar-se uma outra vez por dentro das suas pálpebras, em marcha a ré, quando a sucessão dos fatos talvez resultasse mais aceitável. E ainda sobraria um fiapo de tempo para Benjamim rever-se aqui e  acolá em situações que preferiria esquecer, as imagens ricocheteando  no bojo do seu crânio.” 

 

Um pouco mais adiante, incorporando a ideia da câmera invisível: “Se uma câmera focalizasse Benjamim na hora do almoço, captaria um homem longilíneo, um pouco curvado, com vestígios de atletismo, de cabelos brancos mas bastos, prejudicado por uma barba de sete dias, camisa para fora da calça surrada aparentando desleixo e não penúria, estacionado em frente ao Bar-Restaurante Vasconcelos, tremulando os joelhos como se esperasse alguém.”

 

Para justificar “a sensação de estar sendo filmado”, Chico assim descreve Benjamim: “Adolescente, Benjamim adquiriu uma câmera invisível por entender que os colegas mais astutos já possuíam as suas. O equipamento mostrou-se tão providencial quanto um pente de bolso, e a partir daquele dia a vida dele tomou novo rumo. Benjamim passou a usar topete, e nas pendengas em que antes se descabelava, certo de estar com a razão, mantinha agora um sorriso vago e deixava o adversário a gesticular de costas para a câmera. Com isso ganhou prestígio e beijou na boca muitas garotas, cujos ombros, orelhas e rabos-de-cavalo foram imortalizados em suas películas. O acervo de Benjamim também guarda dublagens de cantor de jazz, saltos de trampolim, proezas no futebol, brigas de rua em que sangrou ou se saiu bem e a sua estréia no sexo com uma senhora de idade (trinta anos, trinta e um, trinta e três), quando ele quase estragou a cena ao olhar para a lente. Fez-se filmar durante toda a juventude, e só com o advento do primeiro cabelo branco decidiu abolir a ridícula coisa. Era tarde: a câmera criara autonomia, deu de encarapitar-se em qualquer parte para flagrar episódios medíocres, e Benjamim já teve ganas de erguer a camisa e cobrir o rosto no meio da rua, ou de investir contra o cinegrafista, à maneira dos bandidos e dos artistas principais. Hoje ele é um homem amadurecido e usa a indiferença como tática para desencorajar as filmagens.

 

A tal câmera invisível volta se fazer notar quando Benjamim vê pela primeira vez Ariela e teme não voltar a cruzar com ela: “Olha para o ventilador que bamboleia no teto e tem consciência de que a moça vai sair do seu filme. Então implora à câmera que o abandone de vez, e que saia sobre uns trilhos atrás da moça, e que se livre dos carretéis e carretéis com a vida de Benjamim Zambraia, e que os atire aos pobres. E deseja que os pobres, que de tudo sabem tirar proveito, se enrolem na história de Benjamim Zambraia e desfilem fantasiados de múmias, e lancem serpentinas, e examinem os fotogramas contra o sol e dêem risadas.

 

A cinefilia de Benjamim é melancólica e fetichista: “Benjamim pensou no que fizera de bom em dois anos — cinema, chope, cinema, cama, chope, cinema, caldo de carne, cama — e falou “só?”. Mais à frente, é dito que ele “habituou-se a vir de táxi àquela praça depois do cinema, antes do cinema, em lugar do cinema, tomando gosto pelos biscoitos de polvilho de uma padaria ao lado da agência dos correios.” 

 

Por outro lado, a assumida atração que Chico Buarque nutria pelas atrizes de cinema na juventude vai reverberar no personagem: “Bocas de mulheres, Benjamim estudara-as sobretudo no cinema, onde evoluem imunes à contemplação. Sentava-se na primeira fila e via filmes em língua estranha sem atentar para as legendas, maravilhado com a metamorfose das vogais, com a plástica das sombras nas bocas enormes.

Benjamim - boca de Ariela.jpg

Cleo Pires em Benjamim, o filme

Ainda as atrizes: “Assistiu no cinema a atrizes com o olhar mortiço, os lábios um nada vacilantes, as narinas que de leve se dilatavam, e algumas com grande talento conseguiam adquirir feições brutais ao simular desejo e prazer. Mas eram desempenhos equivocados, na opinião de Benjamim, que via no êxtase o natural das mulheres, e em todo o resto representação.

 

A sala de cinema como local de romance aparece assim: “Na ocasião, Castana Beatriz também escapou escada abaixo, duvidando que Benjamim a seguisse; vagou pelas ruas, parou num cinema qualquer e entrou no meio do filme sem saber de que tratava. Benjamim sentou-se ao seu lado, e na cena em que a filha do barítono apareceu estrangulada na cortina, foi Castana Beatriz quem tomou a iniciativa de procurar sua mão.

 

O cinema como alternativa à realidade é uma constante nas canções de Chico e também num trecho de Benjamim como esse: “E Ariela habituou-se a baixar os olhos na presença de Zorza, visto que o silêncio não sustenta o peso de longos olhares recíprocos, exceto nos filmes de amor, e nem mesmo nos filmes de amor porque ali, quando cessa o diálogo, o diretor sempre coloca uma música.

 

O mesmo acontece nessa passagem: “Cairia doente se continuasse a aguardar Ariela entre as paredes brancas do apartamento, apesar de não contar topá-la perambulando na noite. Talvez aviste mulheres semelhantes, como sucede nos filmes, onde o herói julga reconhecer a amante do outro lado da rua, por causa do vestido ou dos cabelos, e parte desabalado; precipita-se entre os carros, trepa nos paralamas, esbarra nos figurantes, toca afinal o cotovelo da moça e, no instante em que a impostora vira o rosto, mesmo que possua um belo rosto, é monstruosa.

 

Ao supor que o apartamento de Benjamim tenha as janelas bloqueadas pela montanha, Ariela especula: “Morar em aposento sem janelas, Ariela quer acreditar que não seja de todo mau, e equivalha mais ou menos a viver numa cabine de cinema, onde ela assistiria a filmes mudos em sessão contínua.” 

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