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o cinema na vida de chico

O cinema no horizonte

Além da fantasia juvenil de ser ator, Chico às vezes cogitou um envolvimento maior com o cinema. Aos 18 anos, pensou que, se houvesse uma faculdade séria de cinema em São Paulo, que lhe desse uma perspectiva profissional, talvez pudesse tomar esse caminho, como contou a Regina Zappa.

 

Não há registro de qualquer criação cinematográfica da parte de Chico. Mas ele e Marieta Severo tiveram câmera Super 8 e eventualmente filmavam a família. Um curtíssimo exemplo disso é essa breve tomada de Silvia bebê no colo da mãe, feita pelo pai orgulhoso (filme sem som):

Outra iniciativa no gênero, que pouco passou da intenção, foi o curta-metragem que se chamaria A Cueca do Menor Ainda, imaginado quando de uma passagem de Chico pela casa do cunhado João Gilberto em Nova York. Segundo Regina Zappa, “Menor Ainda” era o apelido de um colega de faculdade de Chico. O único rastro possível dessa experiência é uma espécie de comédia doméstica filmada em Super 8, da qual participam, por ordem de entrada em cena, Sérgio Buarque de Holanda, Bebel Gilberto bebê, Miúcha, João Gilberto, Sérgio Filho (irmão de Chico e Miúcha), Marieta Severo e por fim Chico, que conclui fazendo caretas abraçado com Marieta. Não consegui apurar que função Chico teve na filmagem. O material não tem som:

As relações de Chico com o pessoal do cinema brasileiro têm sido mais frequentes com os parceiros habituais: Hugo Carvana, Cacá Diegues, Ruy Guerra e Miguel Faria Jr. (veja em A música de Chico no cinema).

 

De Glauber Rocha nunca foi parceiro nem íntimo, mas os dois se admiravam mutuamente. Aos 20 anos, quando viu Deus e o Diabo na Terra do Sol, Chico diz que levou um choque, “mas à distância”. O cinema estava num horizonte longínquo.

 

Em 1970, Glauber foi um dos que insistiram para que Chico voltasse do exílio na Itália, assegurando que a barra por aqui estava melhor. Dois anos depois, a situação se invertia. Era Glauber que lhe enviava uma carta do exílio, cujo teor parece antecipar o tom da letra de Meu Caro Amigo, composta por Chico em 1976:

Carta de Glauber.jpg

Sobre Glauber, Chico tinha em 1979 uma opinião que era também a de muita gente. Em entrevista ao jornal O Globo, ele declarou: “Adoro conversar com ele, leio as coisas que ele diz, vejo na televisão ele dizendo aquelas coisas. Agora, ninguém tem que considerar o Glauber analista político e nem levá-lo a sério a esse ponto. Ele é um agitador que sacode tudo, levanta mil questões, mas não dá para repetir o que ele fala, porque de uma semana para outra ele muda tudo e você fica com cara de bobo”. 

 

Entre as muitas tomadas de posição em defesa da democracia e contra a censura, em 1986 Chico liderou a assinatura de um manifesto solicitando que o presidente José Sarney não proibisse a exibição do filme Je Vous Salue, Marie, de Jean-Luc Godard. Naquele mesmo ano, Cacá Diegues e seu sogro, Raphael de Almeida Magalhães, ministro da Previdência e Assistência Social de Sarney, cogitaram lançar a candidatura de Chico ao Senado. Segundo seu biógrafo Tom Cardoso, ao receber o convite Chico achou que se tratava de uma piada. “Cacá, sem graça, nunca mais tocou no assunto” conta Cardoso.

 

A ligação com o compositor italiano Sergio Bardotti permitiu a Chico lançar um disco na Itália, em 1970, com arranjos de Ennio Morricone, o grande autor de trilhas de cinema, entre elas a de Por um Punhado de Dólares. Daí nasceu o título do LP Per un Pugno di Samba. O disco trazia sucessos já lançados no Brasil e três composições novas: Nicanor, Não Fala de Maria e Samba e Amor. Todas as letras foram traduzidas por Bardotti.

 

Esse disco saiu também na França com o título Sambas do Brasil e na Espanha como Por um Puñado de Samba. No Brasil, uma versão em português foi lançada somente em CD, em 2003, intitulada Sonhos de Carnaval.

Chico e Morricone - Per un Pugno di Samba.jpg
Chico e Morricone - CD.jpg
Mangueira

Em 1998, a Mangueira, escola de samba do coração de Chico, o homenageou com o samba-enredo Chico Buarque da Mangueira. A letra incluía o cinema como parte de sua vida. Um trecho:

 

“É o Chico das artes

O gênio

Poeta Buarque

Boêmio

A vida no palco, teatro, cinema

Malandro sambista, carioca da gema”

Chico Buarque da Mangueira
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